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O que é Metanol, encontrado em bebidas adulteradas, Causador de cegueira e intoxicações graves

(Foto: Agência Brasil)
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Causador de cegueira e intoxicações graves, o metanol reaparece em casos no Brasil e é suspeito de ligação com redes criminosas

Nos últimos dias, o tema “bebidas adulteradas com metanol” voltou aos holofotes no Brasil, com pelo menos duas mortes confirmadas no estado de São Paulo e vários casos em investigação. As autoridades de saúde e órgãos de controle estão alertando a população para um risco silencioso, mas extremamente perigoso — e levantam hipóteses que envolvem redes criminosas no fornecimento da substância.

O que é o metanol e por que ele é tão perigoso

O metanol (ou álcool metílico) é uma substância química que aparece como um líquido incolor e inflamável. Ele é comumente usado como solvente industrial ou aditivo em combustíveis e produtos químicos — não é para consumo humano.

Quando ingerido, mesmo em doses pequenas, o metanol pode ser transformado no corpo em compostos altamente tóxicos, como formaldeído e ácido fórmico. Esses subprodutos afetam o fígado, o sistema nervoso central e podem provocar acidose, convulsões, coma, cegueira permanente e morte.

Na literatura médica, sabe-se que os sintomas começam a surgir geralmente entre 12 e 24 horas após a ingestão — pode haver dor de cabeça, náuseas, vômitos, dor abdominal, fraqueza, confusão mental e alterações visuais (visão embaçada, perda de visão). Em casos mais graves, o paciente pode entrar em coma ou morrer.

O diagnóstico exige exame laboratorial especializado, e o tratamento tem de ser imediato. É comum o uso de antídotos (como etanol ou fomepizol), correção de acidose via bicarbonato, suplementação com folato, além de hemodiálise nos casos mais graves.

O surto em São Paulo: mortes e casos investigados

Em São Paulo, segundo a Secretaria de Saúde estadual, foram confirmadas duas mortes por ingestão de bebida adulterada com metanol. Ambas ocorreram em locais diferentes: uma na capital paulista e outra em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Além disso, ao menos nove casos de intoxicação estão sendo investigados nos últimos 25 dias. Esses casos foram registrados pelo Ciatox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) de Campinas e encaminhados às autoridades de saúde por estarem “fora do padrão” para intoxicações.

O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo diz que desde junho já contabilizou seis casos, dois deles fatais — e agora investiga dez ocorrências suspeitas com diferentes tipos de bebidas alcoólicas, como gin, whisky e vodka.

A situação é alarmante porque os casos não estão concentrados apenas em regiões afastadas: envolvem espaços urbanos, bares e estabelecimentos comerciais, o que sugere que bebidas adulteradas estão chegando ao consumidor comum.

A hipótese de rede criminosa: metanol do combustível sendo redirecionado

Uma das linhas de investigação que mais chama atenção é a suspeita da ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação) de que o metanol usado para adulterar bebidas poderia ter origem no mesmo material usado para adulterar combustíveis — um mercado no qual o PCC (Primeiro Comando da Capital) já foi apontado como participante.

As investigações mostraram que, em operações contra fraudes no setor de combustíveis, foram identificadas importações irregulares de metanol por empresas ligadas ao crime organizado. Esse metanol, que não poderia permanecer nos estoques após fechamento de certas distribuidoras, poderia ter sido repassado a destilarias clandestinas ou grupos que falsificam bebidas.

A ABCF levanta ainda que o setor de bebidas falsificadas vem crescendo desde que o sistema de rastreabilidade (Sicobe) foi desligado, o que enfraqueceu o controle estatal.

Se confirmada, essa conexão entre o mercado ilícito de combustíveis e bebidas adulteradas traria um cenário muito mais alarmante, com efeitos nacionais e graves para a saúde pública.

Alertas das associações e medidas sugeridas às autoridades

Diante do quadro, entidades como a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) e a Associação Brasileira de Neuro-Oftalmologia (ABNO) já emitiram alertas públicos:

  • A Abrabe manifestou preocupação com o aumento de apreensões de bebidas falsificadas (mais de 160 mil produtos apenas em 2025) e reforçou que trabalha no combate a esse mercado ilegal.
  • A ABNO destacou que o metanol pode causar neuropatia óptica, com risco de cegueira irreversível em poucas horas.

Essas entidades, em conjunto com órgãos federais e estaduais, recomendam:

  1. O controle rigoroso de fabricantes e distribuidores: monitoramento de insumos químicos e rastreabilidade.
  2. Que bares, restaurantes e estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas verifiquem etiquetas, lacres, selos fiscais e preços suspeitos.
  3. Que consumidores optem por marcas legalizadas, com embalagem adequada e procedência comprovada.
  4. Que sintomas como visão embaçada, dor de cabeça intensa, náuseas e vômitos após uso de bebida alcoólica sejam tratados como emergência médica — levando o paciente ao hospital para investigação toxicológica.
  5. Que lotes suspeitos sejam isolados, mantidos para análise e relatados à Vigilância Sanitária, Ministério Público e polícia.

A gravidade silenciosa: por que casos assim deixam rastros difíceis

Histórias de intoxicação por metanol não são novas. No mundo todo, há registros de surtos letais desencadeados por bebidas adulteradas, especialmente em locais onde o controle estatal é fraco. Por exemplo, em 2016, uma intoxicação em massa na Rússia causou dezenas de mortes após consumo de loções/perfumes que continham metanol e foram vendidos como “álcool”.

No Brasil, muitos casos não são notificados ou reconhecidos como intoxicações por metanol, misturados a quadros de intoxicação genérica, enxaqueca severa, crises gastrointestinais ou AVCs sem causa aparente. Isso dificulta a quantificação real do risco.

A desconfiança de que uma facção criminosa possa estar alimentando essa rede de adulteração coloca o problema não só como questão de saúde pública, mas também de segurança nacional.

O que você pode fazer para se proteger

  • Prefira bebidas alcoólicas comerciais, de marcas reconhecidas e com lacre e selo fiscal intacto.
  • Evite bebidas vendidas em recipientes improváveis, sem rotulagem ou embalagens suspeitas.
  • Caso sinta sintomas após ingerir bebida alcoólica — como visão borrada, dor de cabeça intensa, tontura, náuseas — busque ajuda médica imediatamente e informe ao hospital que houve consumo de bebida suspeita.
  • Denuncie locais que vendem bebidas sem controle ou de origem duvidosa à Vigilância Sanitária ou à polícia local.
  • Divulgue essas informações entre amigos e familiares, pois a vigilância coletiva pode evitar novas tragédias.

Este alerta não pode ser ignorado: vidas estão em risco. É imprescindível que governos, entidades de saúde, polícia e cidadãos atuem juntos para barrar essa prática criminosa e salvar quem poderia nem suspeitar do perigo.