Aos 82 anos, o cantor foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy — entenda o quadro, os sintomas e o dia a dia da família nessa batalha delicada
O cantor Milton Nascimento, aos 82 anos, foi oficialmente diagnosticado com demência por corpos de Lewy (DCL), segundo revelou seu filho e empresário, Augusto Nascimento, em relato emocionado. O diagnóstico trouxe à tona desafios físicos, cognitivos e emocionais, tanto para Milton quanto para sua família, que luta para preservar sua dignidade e qualidade de vida.
O relato do filho e momentos marcantes
Augusto contou que as primeiras mudanças sutis no comportamento do pai já vinham sendo percebidas no final do ano anterior, mas sem indicadores alarmantes no início. Com o tempo, entretanto, essas alterações se tornaram mais visíveis — sermão pausas cognitivas, dificuldade de comunicação, menos interesse por assuntos corriqueiros, perda de curiosidade.
Num gesto de afetividade e urgência, pai e filho fizeram uma viagem de motorhome pelo exterior, percorrendo cerca de 4 000 km juntos. Durante o percurso, Milton participou das escolhas musicais, relembrou memórias e demonstrou prazer no momento presente. Augusto confessou que pressentiu que aquela seria uma despedida simbólica de instantes como aqueles.
Ao retornar ao Brasil, os sinais da doença ficaram mais evidentes. Militares dificuldades para ingerir líquidos e alimentos, episódios de desidratação e uma evolução rápida no quadro cognitivo forçaram a família a acelerar a busca por diagnóstico. Hoje, os diálogos entre eles são, em grande parte, silenciosos ou confusos. Augusto relata que Milton tenta se expressar, mas muitas vezes não consegue.
O que é demência por corpos de Lewy
A demência com corpos de Lewy, ou DCL, é uma forma neurodegenerativa que combina características da doença de Alzheimer e Parkinson, mas com traços próprios. Entre seus sintomas típicos estão:
- Declínio cognitivo: dificuldade de memória, atenção, orientação espacial, funções executivas — mas nem sempre a perda de memória aparece no início.
- Sintomas parkinsonianos: tremores, rigidez muscular, lentidão de movimentos, instabilidade postural.
- Alucinações visuais (ver pessoas, animais, objetos que não existem) e ilusões visuais — são frequentemente relatadas pelos pacientes com DCL.
- Flutuações no nível de atenção e alerta: momentos bons e momentos com degradação visível no desempenho cognitivo.
- Distúrbios do sono REM comportamental: pessoas com DCL podem agir fisicamente durante sonhos — falar, agitar os braços, “atuar” seus sonhos.
- Alterações no sistema nervoso autônomo: problemas na regulação da pressão arterial, digestão, constipação, descontrole do funcionamento automático do corpo.
Os corpos de Lewy são agregados anormais de proteínas (principalmente alfa-sinucleína) presentes dentro das células nervosas, que interferem no funcionamento saudável dessas células.
Diferenças importantes: Alzheimer e Parkinson, onde se encaixa a DCL?
A DCL não é simplesmente Alzheimer ou Parkinson — ela “mistura” aspectos de ambas: além da perda cognitiva típica de demências, há comprometimento motor significativo logo no início, o que não é comum em Alzheimer clássico.
Enquanto Parkinson é mais centrado nos sintomas do movimento, e Alzheimer mais no declínio mental isolado, a DCL se manifesta com esses dois vetores simultaneamente — e tende a responder mal a determinados medicamentos, especialmente antipsicóticos tradicionais, que podem agravar o quadro.
Tratamento, cuidados e perspectivas
Ainda não há cura para a demência por corpos de Lewy. O tratamento é multidisciplinar, com foco em aliviar sintomas, manter autonomia e qualidade de vida.
Abordagens não farmacológicas são essenciais:
- Estimulação cognitiva, reabilitação mental
- Fisioterapia para equilíbrio, marcha e mobilidade
- Terapia ocupacional para ajudar nas atividades do dia a dia
- Fonoaudiologia, nos casos em que fala e deglutição são afetadas
Medicações podem incluir anticolinesterásicos (usados também no Alzheimer), remédios para sintomas específicos (ansiedade, depressão, distúrbios do sono). Mas há grande sensibilidade dos pacientes à classe dos antipsicóticos — em muitos casos, esses remédios pioram o quadro.
Quanto mais precoce o diagnóstico e intervenção, maiores as chances de suporte eficaz. A “reserva cognitiva” — construída com educação, atividades mentais regulares e vida ativa — pode ajudar a retardar os efeitos mais severos.
O impacto familiar e social
O diagnóstico de Milton reacende discussões sobre os desafios das demências: emoções intensas de cuidadores, planejamento de vida, decisões médicas delicadas, respeito à dignidade da pessoa afetada.
Para a própria família de Milton, o diálogo mudou. Muitos momentos são silenciosos, e a rotina exige adaptação constante. Augusto menciona que certas curiosidades do pai — perguntar sobre fofocas, aguardar sua volta — simplesmente deixaram de existir.
Esse caso também ilumina a importância de levar o acompanhamento neurológico e psicológico para além do paciente, estendendo cuidado aos cuidadores e familiares.