Depois de 16 anos longe dos palcos, o ator baiano estreia “Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo”, atraindo plateia ativa e reações entusiasmadas da cena cultural local
Depois de uma pausa de dezesseis anos dedicada ao cinema e outras formas de arte, o ator baiano Wagner Moura retorna ao palco com força e ousadia. A peça “Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo” estreia no dia 3 de outubro em Salvador, no Trapiche Barnabé, em uma montagem que revisita o clássico de Henrik Ibsen e o desloca para o Brasil contemporâneo.
A pré-estreia ocorreu na noite de 2 de outubro, com lotação esgotada, e a temporada vai até o dia 12 de outubro. A montagem é dirigida pela premiada Christiane Jatahy, em colaboração com o dramaturgo Lucas Paraizo e o próprio Wagner Moura.
Uma adaptação com participação ativa do público
A versão brasileira permanece fiel ao espírito de Ibsen, mas insere elementos contemporâneos e propõe uma interação ousada: o público vira júri. Em cada sessão, 11 espectadores são escolhidos para compor o júri e decidir se o protagonista é inocente ou culpado — ou melhor, se é um “inimigo do povo” ou não. Essa participação direta confere à peça um caráter imprevisível: o veredicto pode variar a cada apresentação.
Na história original de Ibsen, o médico Thomas Stockmann descobre que as águas de um balneário estão contaminadas. Quando tenta alertar a população e as autoridades, ele passa a ser acusado de querer causar prejuízo econômico à cidade — ou, nas palavras da trama, de ser um “inimigo do povo”. Nesta releitura brasileira, ese dilema entre ética, ciência, interesses e opinião pública ganha novas camadas e provoca reflexão.
O elenco reúne nomes como Danilo Grangheia e Julia Bernat, além de atores locais como Fernanda Paquelet e Marcelo Flores. Participações audiovisuais de Marjorie Estiano, Jonas Bloch e familiares de Wagner adicionam dimensão narrativa ao espetáculo.
Em Salvador, as sessões ocorrem em diversos horários: segunda às 20h; quarta a sexta às 20h; sábado às 21h; domingo às 19h. Os ingressos variam entre R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira). Após a temporada em Salvador, a montagem seguirá para o CCBB Rio de Janeiro, entre os dias 23 de outubro e 3 de novembro.
Repercussão e expectativas
Para Fernando Guerreiro, diretor teatral e presidente da Fundação Gregório de Mattos, a estreia da peça em Salvador representa “momento histórico”. Ele destacou que a volta de Wagner Moura aos palcos na cidade natal tem um simbolismo muito grande para o teatro local e nacional.
Guerreiro ressaltou a atualidade do texto e sua capacidade de estimular reflexões sobre o papel da arte em tempos de crise: “É provocadora e nos faz pensar sobre o papel da arte em momentos de crise.” Ele também enfatizou que apresentar espetáculos de porte em Salvador fortalece a cadeia cultural local, gera visibilidade e alimenta o público com debates urgentes.
Na mídia especializada, a volta de Moura aos palcos é tratada como retorno significativo. A CNN Brasil destaca que o espetáculo “Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo” marca o primeiro retorno de Wagner ao teatro desde sua encenação de Hamlet, há 16 anos. E que a montagem propõe que, em cada sessão, o público decida o destino do protagonista.
A revista Bravo! também comenta a proposta ambiciosa da adaptação: transportar a narrativa de Ibsen para 2025, além de inserir atores locais para coordenar o júri e consolidar o caráter coletivo da peça.
Por que esse retorno importa?
- Reencontro com o teatro: para Moura, é um retorno às raízes artísticas e ao contato direto com público que o acompanha além das telas.
- Inovação dramatúrgica: permite que o espectador participe do desfecho, borrando a linha entre ator e público.
- Força simbólica local: que um artista baiano de projeção nacional retorne ao palco em sua cidade fortalece o teatro regional.
- Reflexão contemporânea: temas como verdade, poder, opinião pública e ética ganham dimensão ao serem encenados no Brasil de hoje.