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O Trauma que Não Acaba: Ginastas Americanas Processam Órgãos Esportivos por Negligência em Escândalos de Abuso

Foto: reprodução
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Atletas alegam que a USA Gymnastics e o SafeSport Center, criado após o caso Larry Nassar, ignoraram denúncias por anos contra o técnico Sean Gardner, permitindo que ele continuasse fazendo vítimas.

A ginástica artística dos Estados Unidos volta a ser palco de um drama judicial pesado. Duas ex-ginastas que treinavam em uma academia de elite em Iowa, nos EUA, entraram com ações civis contra a USA Gymnastics (USAG) — a federação nacional de ginástica — e o Centro SafeSport dos EUA. A alegação central é de negligência e encobrimento, pois os órgãos supostamente falharam em impedir que o técnico Sean Gardner continuasse abusando de jovens atletas, mesmo após receberem denúncias repetidas sobre seu comportamento predatório.

Os processos são os primeiros a surgir após a prisão de Gardner, em agosto, por acusações federais relacionadas à pornografia infantil. O caso é um soco no estômago da comunidade esportiva, pois expõe o fracasso de um sistema que deveria ter sido completamente reformado após o mega-escândalo de Larry Nassar.


Denúncias Ignoradas e o Caminho Livre para o Abusador

Os documentos protocolados pelas atletas detalham uma cronologia assustadora de inação. As denúncias sobre o “comportamento inadequado e abusivo” de Sean Gardner começaram a ser reportadas à USA Gymnastics e ao SafeSport Center em dezembro de 2017, quando o técnico ainda estava em um ginásio no Mississippi.

As alegações incluíam a prática de aliciamento (ou grooming), como exigir longos abraços das meninas após o treino, dar beijos na testa, fazer piadas sexuais inapropriadas para adolescentes e consumir álcool excessivamente na frente das atletas. Mesmo diante desses alertas claros de um padrão predatório, as organizações foram acusadas de:

  • Não investigar as denúncias de forma adequada.
  • Não revogar as credenciais de treinador de Gardner.
  • Não denunciá-lo às autoridades policiais.

Essa inação permitiu que Gardner fosse contratado, em 2018, pelo renomado Chow’s Gymnastics and Dance Institute, em Iowa. O instituto é famoso por ter formado campeãs olímpicas como Shawn Johnson e Gabby Douglas. O próprio fundador, Liang “Chow” Qiao, e sua esposa, Liwen Zhuan, também foram citados como réus nos processos, acusados de negligência por contratarem Gardner sem a devida verificação de antecedentes e por continuarem a empregá-lo mesmo após receberem reclamações dentro do ginásio de Iowa.


A Devastadora Falha do Sistema Pós-Nassar

A parte mais grave deste novo escândalo é o envolvimento do SafeSport Center. Esta organização foi criada pelo Congresso dos Estados Unidos, justamente como uma resposta direta e necessária ao caso de Larry Nassar, o ex-médico da equipe de ginástica que abusou sexualmente de centenas de atletas olímpicas, como Simone Biles e Aly Raisman, ao longo de décadas.

O escândalo Nassar levou a uma indenização histórica de US$ 380 milhões por parte da USAG e do Comitê Olímpico e Paralímpico dos EUA (USOPC) às vítimas e resultou na promessa de tolerância zero e na criação de um órgão de vigilância independente (o SafeSport) para investigar abusos.

O fato de as novas ginastas terem sofrido abusos após a criação do SafeSport, e por conta de sua alegada ineficiência em agir sobre relatórios de 2017, é uma indicação dolorosa de que as falhas sistêmicas e a cultura de encobrimento que valoriza o sucesso esportivo acima da segurança das atletas permanecem. Os processos alegam que o SafeSport perdeu “repetidas oportunidades” de deter Gardner, mostrando que a entidade, que deveria ser a solução, se tornou “parte de um problema maior”.

As denunciantes, Finley Weldon e Hailey Gear (que eram adolescentes na época e hoje são estudantes universitárias), buscam indenização não especificada por todos os danos e despesas de tratamento, na esperança de quebrar o ciclo de impunidade e forçar uma mudança real e efetiva dentro do esporte de elite americano.