Homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente gera ofensiva da oposição, investigação de contas e a desistência estratégica da primeira-dama Janja no Sambódromo.
O Carnaval de 2026 não ficou restrito apenas ao samba e ao brilho das lantejoulas. A política brasileira, sempre pronta para entrar em cena, encontrou na Marquês de Sapucaí um novo campo de batalha. O pivô da história foi o desfile da Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida um enredo focado na trajetória de vida e na figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que deveria ser uma manifestação cultural, segundo os organizadores, rapidamente se transformou em um imbróglio jurídico e político de grandes proporções.
A Ofensiva da Oposição e a Lupa no Orçamento
Assim que os primeiros detalhes do enredo “Lula” foram divulgados, a oposição ao governo federal não perdeu tempo. Parlamentares do Partido Liberal (PL), liderados por figuras centrais da ala bolsonarista, anunciaram que vão acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério Público. O objetivo é realizar uma devassa nas contas da escola de samba.
A suspeita levantada pelos opositores é de que possa ter ocorrido o uso de recursos públicos ou doações irregulares para viabilizar um desfile que, na visão deles, configura propaganda eleitoral antecipada ou promoção pessoal indevida. De acordo com fontes do partido, a intenção é obrigar a Acadêmicos de Niterói a abrir suas planilhas e provar a origem de cada real gasto nas alegorias e fantasias que exaltaram o presidente.
Janja e o Recuo Estratégico
Um dos momentos mais aguardados era a participação da primeira-dama, Janja Lula da Silva, no desfile. No entanto, em uma decisão de última hora que pegou muitos de surpresa, Janja anunciou que não cruzaria a avenida junto com a escola.
Em suas redes sociais e através de interlocutores, a primeira-dama explicou que a desistência foi um ato de proteção à agremiação. Segundo ela, sua presença poderia ser usada como combustível para uma “perseguição implacável” contra a escola de samba e seus integrantes. “Não quero que a alegria desses trabalhadores do Carnaval seja ofuscada por ataques políticos”, teria afirmado. A ideia foi desinflar a narrativa de que o desfile era um ato oficial de governo dentro do Sambódromo.
Cultura ou Política? O Lado dos Governistas
Por outro lado, os defensores do governo e a própria direção da Acadêmicos de Niterói rebatem as críticas com veemência. Para eles, o desfile é um ato cultural legítimo. Argumentam que Lula é uma figura histórica do Brasil e que sua trajetória — de retirante a presidente — é um tema clássico da cultura popular, assim como já foram homenageados outros ex-presidentes e personalidades em anos anteriores.
Sites especializados em Carnaval e política lembram que a legislação brasileira protege a liberdade de expressão artística, mas o desafio agora será provar que não houve desequilíbrio econômico ou abuso de poder. Enquanto os advogados se preparam para o embate nos tribunais, a Sapucaí fica marcada por um dos desfiles mais comentados e polêmicos dos últimos tempos.
Foto: Ricardo Stuckert