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Anúncio do governo sobre caneta emagrecedora no SUS gera expectativa, mas esbarra em prazos e desafios orçamentários

Foto: GI/Getty Images
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Promessa de oferta gratuita de medicamentos à base de semaglutida traz esperança para pacientes com obesidade grave, embora processo de avaliação técnica e custos bilionários indiquem que medida ainda pode levar tempo para se concretizar.

Uma notícia recente chamou a atenção de milhões de brasileiros: a possibilidade de acessar, de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento para a obesidade conhecido popularmente como “caneta emagrecedora”. O anúncio sobre a intenção de incorporar o medicamento à rede pública foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita a uma fábrica farmacêutica em Montes Claros, Minas Gerais.

A proposta surge em um momento alarmante para a saúde pública. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostravam que, em 2019, cerca de 41,2 milhões de adultos no Brasil conviviam com a obesidade — o que representava 25,9% da população com 18 anos ou mais. Além disso, levantamentos do sistema Vigitel apontaram um crescimento contínuo do problema nas capitais, onde a taxa de obesidade saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.

Apesar da expectativa criada, especialistas e dados do setor indicam que a distribuição na rede pública não acontecerá de imediato. A medida envolve etapas burocráticas, planejamento orçamentário e avaliações técnicas criteriosas que podem se estender ao longo dos próximos anos.

Quem terá direito ao tratamento?

Ao contrário do uso estético que se popularizou nos últimos anos, a oferta no SUS será restrita e direcionada por critérios estritamente médicos. O Ministério da Saúde e as diretrizes em análise preveem atender:

  • Pacientes com obesidade grave;
  • Pessoas com doenças associadas à obesidade;
  • Pacientes que aguardam por cirurgia bariátrica.

O Ministério da Saúde também avalia potenciais benefícios do tratamento para pacientes com problemas cardiovasculares e mulheres com histórico de câncer de mama. Portanto, não haverá distribuição livre; cada caso dependerá de avaliação e prescrição médica, dentro de protocolos que ainda serão publicados.

Em Porto Alegre, um projeto-piloto chamado estudo Real-Bari já está em andamento desde junho no Grupo Hospitalar Conceição. O estudo acompanha 250 pacientes tratados com semaglutida — princípio ativo da classe dos agonistas de GLP-1 — para verificar se o uso da medicação consegue controlar a obesidade e evitar a necessidade de procedimentos cirúrgicos. Exames, custos, segurança e qualidade de vida dos participantes estão sendo monitorados.

Trâmite técnico e impacto financeiro

Para que a caneta chegue às unidades de saúde em todo o país, a proposta precisa passar pelo crivo da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O órgão é responsável por analisar a eficácia, a segurança e a viabilidade econômica de novos tratamentos no SUS.

Em agosto de 2025, a Conitec já havia rejeitado um pedido anterior de incorporação da semaglutida (Wegovy), apresentado pela farmacêutica Novo Nordisk. Naquela ocasião, estimou-se um impacto financeiro entre R$ 6,5 bilhões e R$ 7 bilhões em cinco anos para atender a um grupo de aproximadamente 150 mil pessoas.

Em maio deste ano, a empresa protocolou uma nova solicitação com escopo reduzido, voltada a um público estimado em 38 mil pacientes e com proposta de desconto no valor do produto. Estima-se que os custos dessa nova abordagem variem de R$ 456 milhões a R$ 650 milhões anuais, podendo alcançar R$ 2,6 bilhões em quatro anos.

A Conitec possui prazo legal de 180 dias (prorrogáveis por mais 90) para concluir suas avaliações. Caso haja aprovação técnica e publicação da portaria correspondente, o SUS dispõe de até 180 dias para organizar a distribuição. Esse intervalo é necessário para formular o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas, definir o orçamento, pactuar responsabilidades entre União, estados e municípios e realizar os processos de licitação. Considerando todo o fluxo e eventuais prazos operacionais, analistas projetam que a oferta efetiva na rede pública só deva ocorrer a partir do segundo semestre de 2027.

Mudanças no mercado farmacêutico

O cenário do tratamento da obesidade no Brasil passou por transformações recentes com a expiração da patente da semaglutida em março. O fim da exclusividade permitiu a entrada de genéricos e similares produzidos por diferentes empresas, como EMS, Hypera Pharma e Sandoz, somando ao menos 14 medicamentos registrados na categoria perante o Ministério da Saúde.

A maior concorrência no mercado privado pode ajudar a reduzir custos, mas a escolha do medicamento que eventualmente será adquirido pelo governo dependerá de licitações públicas e requisitos técnicos específicos, não estando atrelada a marcas comerciais específicas.

Além das questões financeiras e burocráticas, a implementação do tratamento em larga escala no SUS exige estrutura adequada para o armazenamento refrigerado dos produtos, treinamento de equipes de saúde para a aplicação e acompanhamento médico contínuo para controle de eventuais efeitos colaterais.