Análises realizadas pelo rover Perseverance, da Nasa, identificaram partículas microscópicas que podem penetrar profundamente no organismo humano e representam um desafio para futuras missões tripuladas ao planeta.
A exploração de Marte pode apresentar um desafio que vai muito além das condições extremas de temperatura e da distância da Terra. Um estudo baseado em dados coletados pelo rover Perseverance, da Nasa, identificou partículas de poeira tão pequenas que podem penetrar nos equipamentos de proteção dos astronautas e alcançar regiões profundas do organismo, incluindo o sistema nervoso central.
O Perseverance explora o planeta vermelho desde 2021 e foi equipado com pequenas amostras de materiais utilizados na fabricação de trajes espaciais. O objetivo é observar como esses tecidos interagem com a poeira marciana e avaliar possíveis dificuldades para futuras missões humanas.
As análises foram realizadas com o instrumento PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry), instalado no braço robótico do veículo. Por meio da fluorescência de raios X, o equipamento conseguiu identificar partículas finas de aproximadamente 2,5 micrômetros e partículas ultrafinas próximas de 100 nanômetros, cerca de 700 vezes menores que a espessura de um fio de cabelo humano.
Além do tamanho reduzido, a composição química da poeira também preocupa os pesquisadores. O material contém ferro, enxofre e fósforo, além de percloratos, substâncias que podem provocar efeitos prejudiciais à saúde quando há exposição suficiente.
Segundo as informações apresentadas no estudo, partículas extremamente pequenas podem entrar no organismo pelas vias respiratórias, alcançar os pulmões e, dependendo de suas características, chegar à corrente sanguínea ou ao sistema nervoso central. Esse possível mecanismo levanta preocupações sobre riscos neurológicos, incluindo doenças como Alzheimer e Parkinson.
Os percloratos também merecem atenção por seus efeitos sobre o funcionamento da tireoide. A exposição a essas substâncias pode provocar alterações hormonais, danos aos tecidos e toxicidade no organismo.
A descoberta reforça a importância de desenvolver equipamentos capazes de proteger os astronautas não apenas durante a permanência na superfície de Marte, mas também no momento de entrar e sair dos habitats espaciais. A poeira pode ficar aderida aos trajes e ser transportada para os ambientes internos.
Embora a Terra também tenha partículas de poluição atmosférica prejudiciais à saúde, a composição química e as dimensões da poeira marciana acrescentam novas preocupações ao planejamento das viagens espaciais.
Os resultados não significam que uma missão humana a Marte seja inviável, mas mostram que a proteção contra a poeira será um dos pontos importantes a serem considerados pela Nasa. Compreender o comportamento dessas partículas poderá contribuir para o desenvolvimento de trajes, filtros e estruturas mais seguros para os futuros exploradores do planeta vermelho.
Observação editorial: o estudo aponta riscos potenciais associados à exposição às partículas. Não comprova que a poeira marciana cause Alzheimer ou Parkinson em seres humanos, nem que tenha sido demonstrada a passagem dessas partículas através de trajes espaciais em condições reais de uma missão tripulada.