Colapso de um dos maiores bancos digitais paraguaios expôs problemas na gestão financeira, relações entre empresários e autoridades públicas e colocou em discussão a segurança do sistema bancário. O episódio também apresenta semelhanças e diferenças importantes em relação ao caso Banco Master, no Brasil.
A crise envolvendo o Ueno Bank, no Paraguai, tornou-se um dos maiores escândalos financeiros e políticos recentes da América do Sul. O episódio começou com a intervenção do Banco Central paraguaio na instituição financeira, mas rapidamente ultrapassou os limites do setor bancário, atingindo milhões de clientes, provocando investigações criminais e culminando na queda do presidente Santiago Peña.
Para entender o que aconteceu, é preciso voltar à trajetória do banco. Criado em 2021, o Ueno cresceu rapidamente e se transformou em uma das principais instituições financeiras do Paraguai. Em setembro de 2026, afirmava possuir aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. Isso significa que quase metade da população mantinha algum vínculo com a instituição.
O crescimento acelerado, porém, escondia problemas que passaram a chamar a atenção das autoridades reguladoras.
Como o banco chegou à crise
Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai anunciou a intervenção e o início do processo de resolução do Ueno Bank. A decisão foi tomada depois que o índice de solvência da instituição caiu para 5,56%, menos da metade dos 12% exigidos pela regulamentação paraguaia.
Esse indicador mede a capacidade de um banco de absorver perdas e manter suas obrigações financeiras. Quando fica abaixo do limite estabelecido, significa que a instituição apresenta dificuldades para sustentar suas operações com segurança.
As investigações identificaram problemas na avaliação de riscos e inconsistências nas informações financeiras utilizadas para aprovar empréstimos. Também foram apontadas operações consideradas excessivas com empresas relacionadas aos próprios controladores do banco, o Grupo Vázquez.
A situação levou à suspensão dos serviços bancários e ao congelamento dos ativos e passivos da instituição, deixando milhões de clientes temporariamente sem acesso às contas, cartões e recursos financeiros.
O impacto foi imediato. Houve filas para saques, dificuldades de acesso aos aplicativos e preocupação entre os correntistas, que passaram a questionar quando e como conseguiriam recuperar o dinheiro depositado.
O dinheiro dos clientes e os recursos públicos
Um dos aspectos mais preocupantes do caso é o volume de recursos envolvidos. O Ueno Bank administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previdência Social do Paraguai, responsável pelo sistema estatal de aposentadorias.
Isso ampliou a preocupação para além dos correntistas, especialmente entre aposentados e beneficiários da previdência.
O país possui um Fundo de Garantia de Depósitos que protege valores de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, aproximadamente R$ 205 mil. Segundo as autoridades, esse limite contempla cerca de 97% dos depositantes da instituição.
A restituição dos valores já começou. Em 7 de novembro, o Banco Central paraguaio informou que aproximadamente 1,2 milhão de clientes haviam recebido de volta seus recursos, totalizando 996 bilhões de guaranis, cerca de R$ 885,8 milhões.
O processo, entretanto, ainda exige atenção, principalmente para quem possui depósitos superiores ao limite garantido e depende da apuração dos valores disponíveis para ressarcimento.
Por que a crise chegou à Presidência do Paraguai?
O caso ganhou dimensão política por causa das relações entre o banco, seus controladores e integrantes do governo.
O presidente Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025. Além disso, Carlos Carvallo Spalding, que presidia o Banco Central paraguaio, havia comandado anteriormente o Ueno antes de assumir a função pública.
Essas ligações levantaram questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização da instituição.
A oposição acusou Peña de ter responsabilidade política pela crise, além de apontar possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos e a fiscalização do banco.
A pressão aumentou com o avanço das investigações. O Ministério Público solicitou medidas contra antigos dirigentes e executivos da instituição, enquanto a Justiça determinou prisões de pessoas ligadas à administração do banco.
O desgaste político culminou na saída de Santiago Peña da Presidência. O episódio também expôs disputas internas no Partido Colorado, que governa o Paraguai há décadas e já enfrentava divergências entre suas principais lideranças.
A crise bancária acabou funcionando como um fator decisivo em um cenário político que já apresentava fragilidades.
O que o caso tem a ver com o Banco Master, no Brasil?
A comparação entre o Ueno Bank e o Banco Master não surgiu por acaso. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil identificaram pontos de contato entre os dois episódios, principalmente no crescimento acelerado das instituições, na exposição a recursos públicos, nas operações financeiras questionadas e nas relações com pessoas ligadas ao poder público.
No Brasil, o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após uma grave deterioração de sua situação financeira e questionamentos sobre operações consideradas irregulares.
O caso também envolveu investigações sobre relações entre o banqueiro, políticos e antigos integrantes de órgãos de fiscalização do sistema financeiro.
Há, portanto, semelhanças importantes: nos dois países, as crises levantaram dúvidas sobre a qualidade dos ativos das instituições, a concessão de empréstimos, a utilização de recursos e a independência dos mecanismos de fiscalização.
Mas existe uma diferença fundamental: o tamanho e a importância de cada banco dentro de seu respectivo sistema financeiro.
O Ueno concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio e tinha cerca de 3 milhões de clientes. Já o Banco Master representava aproximadamente 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.
Na prática, o Ueno tinha uma presença proporcionalmente muito maior na economia paraguaia. Por isso, seu colapso atingiu diretamente uma parcela expressiva da população e provocou uma crise de confiança com efeitos sobre o cotidiano do país.
No Brasil, a liquidação do Master teve impacto importante sobre investidores e sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que precisou desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir clientes, mas não representou uma ameaça à estabilidade de todo o sistema bancário nacional.
E como essa crise pode afetar o Brasil?
Embora o problema tenha origem no Paraguai, seus efeitos ultrapassam as fronteiras do país. O Brasil mantém relações comerciais e financeiras relevantes com o vizinho, além de ser uma das principais origens do capital estrangeiro investido na economia paraguaia.
Nos últimos anos, o Paraguai passou a atrair empresários e investidores brasileiros interessados em oportunidades de negócios, custos operacionais e condições econômicas consideradas favoráveis.
Nesse contexto, uma crise bancária dessa dimensão pode afetar a percepção de segurança dos investidores, aumentar a cautela na realização de novos negócios e provocar questionamentos sobre a fiscalização das instituições financeiras e a proteção dos recursos públicos.
O escândalo também atingiu a confiança no ambiente de negócios paraguaio. Segundo informações divulgadas durante a crise, os problemas envolvendo o Ueno chegaram a afetar negativamente títulos em dólares emitidos pelo próprio banco e títulos soberanos do Paraguai, indicando que a preocupação dos investidores não ficou restrita à instituição financeira.
Isso não significa, entretanto, que o sistema bancário brasileiro esteja diretamente ameaçado pela crise do Ueno. O impacto mais imediato para o Brasil está relacionado à confiança dos investidores, às relações econômicas com o Paraguai e à necessidade de atenção às operações financeiras que envolvem recursos públicos.
O episódio também serve de alerta para os dois países sobre a importância de uma fiscalização independente, transparência na gestão dos bancos e mecanismos capazes de identificar problemas antes que eles se transformem em crises de grandes proporções.
Mais do que a história de um banco que não conseguiu sustentar seu próprio crescimento, o caso Ueno mostra como problemas na gestão financeira podem se transformar em uma crise econômica, social e política, especialmente quando envolvem instituições com forte presença na vida da população e relações próximas com o poder público.