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Arquitetura afro-brasileira: uma ponte para cidades resilientes e sustentáveis​​

Casa de pau a pique dentro de vegetação densa de babaçus no Quilombo de Itamatatiua, zona rural de Alcântara, Maranhão — Foto: Brazil Photos/Getty Images
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Saberes ancestrais e conexão com a natureza oferecer soluções para enfrentar crises ambientais e sociais

As crises climáticas recentes, como as enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul e as secas graves que impactaram mais de mil municípios brasileiros em 2024, escancaram a urgência de soluções mais humanas e sustentáveis. Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostram que, entre janeiro e setembro deste ano, a temperatura média global foi 1,54 °C superior aos níveis pré-industriais, ultrapassando o limite recomendado pelo Acordo de Paris. Em meio a esse cenário alarmante, a arquitetura afro-brasileira emerge como uma alternativa inovadora e profundamente enraizada em práticas ancestrais que podem ajudar a transformar o futuro das cidades.

O Terreiro Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê (ou Terreiro do Gantois), em Salvador, foi fundado em 1849 e tombado pelo IPHAN em 2022 — Foto: Reprodução/Facebook Terreiro do Gantois – Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase

O que define uma arquitetura afro-brasileira?
A arquitetura afro-brasileira reflete a visão do mundo dos povos afrodescendentes, incorporando valores, estéticas e saberes que datam da diáspora africana. Presente em quilombos e terreiros urbanos e rurais, essa arquitetura é uma expressão da comunidade negra como guardiã e criadora de técnicas construtivas adaptadas ao ambiente natural e social. Segundo Fábio Velame, arquiteto e líder do grupo de pesquisa EtniCidades da UFBA, a arquitetura afro-brasileira não se limita à construção física: ela é uma manifestação cultural que conecta ancestralidade, coletividade, territorialidade e harmonia com a natureza.

Para a arquiteta Vilma Patrícia Santana Silva, cofundadora do EtniCidades, falar de “arquiteturas” afro-brasileiras no plural é mais proteção, dado que elas abrigam uma diversidade de técnicas e tradições. “Cada terreiro ou quilombo é único em sua construção e reflete um legado cultural que atravessa gerações”, afirma.

Quilombos e terreiros: símbolos de resistência e sabedoria
Os quilombos, formados por descendentes de africanos escravizados, e os terreiros, espaços religiosos de matriz africana, exemplificam a fusão de espiritualidade, cultura e sustentabilidade da arquitetura afro-brasileira. Técnicas como o pau a pique e o adobe, que utilizam materiais naturais como barro e madeira, mostram que é possível construir de maneira acessível, com baixo impacto ambiental e alta eficiência térmica.

Além dos aspectos físicos, os processos construtivos desses espaços revelam uma conexão espiritual com a natureza. Desde o momento da remoção dos materiais até o ato de construção, há uma reverência pela terra e pelos ancestrais. “Cada casa de taipa, ao ser construída, carrega memórias, histórias e valores da comunidade”, destaca Velame.

Quilombo Conceição do Igarapé do Lago do Maracá, localizada no estado do Amapá — Foto: Anderson Menezes/Amazônia Real/Wikimedia Commons

Como a arquitetura afro-brasileira inspira soluções para o futuro?
A arquitetura afro-brasileira desafia paradigmas urbanos centrados em concreto e asfalto, oferecendo uma visão integrada da cidade como organismo vivo. Práticas como o uso de técnicas ancestrais, a preservação de áreas naturais, o cuidado com rios e nascentes e o planejamento comunitário podem criar cidades mais resilientes às crises ambientais.

Segundo Vilma Patrícia, um dos ensinamentos fundamentais da arquitetura é que o território molda a construção, e não o contrário. “Os espaços afro-brasileiros são concebidos a partir de uma lógica que privilegia o legado cultural da comunidade, promovendo equilíbrio entre ser humano e ambiente”, explica.

Primeiro terreiro tombado pelo Iphan, o Terreiro Casa Branca do Engenho Velho, localizado em Salvador (BA), foi fundado em 1830 e conta com uma área de 6.800 m² — Foto: Caio Cruz/Ministério da Cultura

Desafios e Preservação
Apesar de seu potencial transformador, a arquitetura afro-brasileira ainda enfrenta o apagamento causado pelo racismo estrutural e pela falta de reconhecimento institucional. Apenas uma pequena fração dos quilombos e terreiros do Brasil foi tombada como patrimônio cultural, e as políticas de preservação são insuficientes. Além disso, é essencial valorizar as comunidades que preservam e transmitem esses saberes.

O Terreiro Raiz de Ayrá é um templo de candomblé Nagô vodum, localizado na cidade de São Félix, na Bahia — Foto: Wikimedia Commons

Reconhecer e promover a arquitetura afro-brasileira é mais do que preservar técnicas do passado; é uma forma de construir um futuro mais inclusivo e sustentável. “Ela nos ensina que é possível viver em harmonia com a natureza, ao mesmo tempo que resgata a dignidade e a identidade das comunidades afrodescendentes”, conclui Velame.

Quilombo Cangume, em Itaóca, São Paulo — Foto: Wikimedia Commons

O espaço-instalação projetado pelo arquiteto Alexandre Salles para a CASACOR São Paulo 2024, chamado Terreiro, tem foco na ancestralidade afro-brasileira — Foto: Salvador Cordaro


Fonte: Vogue Casa