Intervenção ajuda a neutralizar a acidez no sangue causada pela toxina, mas não substitui tratamento completo
Em meio ao alerta nacional sobre casos de intoxicação por metanol no Brasil, especialistas e autoridades de saúde têm adotado o uso hospitalar do bicarbonato de sódio como medida emergencial para estabilizar pacientes. O propósito: neutralizar a acidose metabólica gerada pela presença de ácido fórmico no organismo, um subproduto tóxico do metanol.
O metanol, ao ser metabolizado no fígado, é transformado em formaldeído e depois em ácido fórmico — esta última substância é altamente corrosiva, altera o pH sanguíneo e causa grande risco aos órgãos vitais. Quando o sangue se torna muito ácido, há comprometimento da respiração, depressão do sistema nervoso central, disfunções visuais (inclusive cegueira) e risco de falência circulatória.
Como o bicarbonato atua no tratamento
O bicarbonato de sódio, administrado via intravenosa em ambiente hospitalar, funciona como um tampão químico: ele ajuda a elevar o pH, corrigindo o equilíbrio ácido-básico. Ou seja, reduz a acidez excessiva que ameaça o funcionamento normal das células e órgãos.
No entanto, é importante destacar que o bicarbonato não elimina o metanol nem bloqueia sua transformação em ácido fórmico — sua missão é ganhar tempo, estabilizar o paciente enquanto os tratamentos definitivos são aplicados.
As intervenções complementares essenciais incluem:
- Uso de antídotos, como fomepizol ou etanol farmacêutico, que inibem a enzima responsável por converter o metanol em toxinas.
- Em casos mais graves, hemodiálise (filtração do sangue) para remover o metanol e seus metabólitos.
- Monitoramento intensivo dos sinais vitais, equilíbrio eletrolítico e função de órgãos críticos.
Quando o uso de bicarbonato é indicado
Não todo paciente intoxicado precisa receber bicarbonato. A decisão depende dos níveis de acidez no sangue — se o pH cai muito (abaixo de 7,3, por exemplo), médicos consideram o uso agressivo e controlado da substância.
Além disso, o protocolo técnico do Ministério da Saúde, em nota recente, recomendou a administração como medida emergencial nesses casos de intoxicação, sempre dentro de ambiente hospitalar.
O uso indevido ou caseiro de bicarbonato é perigoso e não tem respaldo — a substância usada deve ter origem farmacêutica e ser aplicada com supervisão médica, pois tanto o excesso de acidez quanto o excesso de alcalinidade podem causar danos.
Panorama da intoxicação por metanol no Brasil
Em 2025, o país registrou um surto de intoxicações por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas. Até o início de outubro, havia mais de 225 casos notificados, sendo 16 confirmados e dezenas em investigação.
São Paulo figura como o estado com maior número de notificações, e possui os casos confirmados e mortes mais divulgados.
Historicamente, surtos similares já aconteceram no Brasil — por exemplo, em 1992, quando várias pessoas foram intoxicadas por bebidas adulteradas, e em 1999, quando dezenas morreram após consumo de cachaça contaminada.
Considerações finais
O uso de bicarbonato de sódio em intoxicações por metanol é uma medida de primeiro socorro em ambiente hospitalar, capaz de minimizar os efeitos agudos da acidose enquanto os métodos específicos (antídotos, hemodiálise) são acionados.
Mas não é solução única. A rapidez no diagnóstico, a administração adequada dos antídotos e a remoção do metanol são essenciais. A crise recente no Brasil reforça a gravidade do consumo de bebidas adulteradas e a importância de controle rigoroso e fiscalização.