Anatel justifica mudança como forma de dar mais liberdade às empresas, mas consumidores reclamam da enxurrada de chamadas de telemarketing
Desde que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deixou de obrigar as empresas de telemarketing a usarem o prefixo 0303 em suas chamadas, muitos brasileiros têm relatado um aumento significativo no número de ligações indesejadas. A mudança, que entrou em vigor em agosto de 2025, já trouxe reflexos no dia a dia de consumidores que voltaram a se sentir “invadidos” por chamadas de vendas.
“Só hoje recebi mais de 30 ligações. Antes, eu bloqueava quando via o 0303, agora não sei mais de onde vem”, contou um morador de São Paulo em entrevista à imprensa. O relato não é isolado: nas redes sociais, diversos usuários têm compartilhado frustração com a enxurrada de chamadas recebidas ao longo do dia, muitas vezes de números comuns que se misturam a ligações pessoais ou de trabalho.
A justificativa da Anatel
De acordo com a Anatel, a decisão foi tomada para dar mais flexibilidade às empresas e evitar custos adicionais no setor. O órgão regulador afirmou que a identificação do 0303 gerava dificuldades técnicas e que a obrigatoriedade foi substituída por mecanismos alternativos de proteção ao consumidor, como o uso da plataforma “Não me Perturbe”, na qual é possível cadastrar números para bloquear chamadas de telemarketing.
A agência reforçou ainda que continuará monitorando o setor e que as operadoras de telefonia são obrigadas a oferecer meios para que os usuários possam identificar e bloquear ligações indesejadas. No entanto, a percepção de quem recebe as chamadas é de que o fim da padronização trouxe mais dificuldade para controlar o fluxo de contatos abusivos.
Reações da população
Desde a mudança, as reclamações dispararam. Muitos consumidores relatam sentir-se novamente vulneráveis, já que o 0303 era facilmente reconhecido e permitia decidir se atender ou não. Agora, com a diversidade de números utilizados, fica mais difícil diferenciar uma ligação importante de uma tentativa de venda insistente.
Entidades de defesa do consumidor já começaram a pressionar a Anatel para rever a medida. Para o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), por exemplo, a retirada do prefixo vai contra a transparência e aumenta o incômodo da população, que já lida com uma rotina de ligações invasivas.
Caminhos para se proteger
Apesar das reclamações, ainda existem alternativas para o consumidor se proteger. Além do “Não me Perturbe”, os usuários podem recorrer a aplicativos de bloqueio de chamadas, disponíveis gratuitamente para celulares. Algumas operadoras também oferecem serviços próprios de filtragem, mas nem sempre gratuitos.
Especialistas lembram que, se as ligações persistirem em excesso, o consumidor pode formalizar queixas junto à Anatel ou ao Procon, fortalecendo a pressão para que medidas mais eficazes sejam adotadas.
Um problema antigo que volta à tona
O Brasil já liderava os rankings mundiais de países que mais recebem ligações de telemarketing antes da obrigatoriedade do 0303, implementada em 2022. O prefixo havia sido visto como um avanço para diminuir a sensação de assédio, ainda que não fosse uma solução definitiva. Agora, com o seu fim, muitos consumidores temem que a situação volte a piorar e que a rotina de interrupções constantes seja novamente parte da vida dos brasileiros.
Enquanto isso, o debate segue entre liberdade empresarial e direito à privacidade, reacendendo uma questão que, para milhões de brasileiros, se traduz em algo muito simples: conseguir atender o telefone sem medo de ser incomodado.