Influenciador e especialista em aviação enfrentou a doença de Creutzfeldt-Jakob, recebeu tratamento experimental e manteve a lucidez mesmo com a perda progressiva de movimentos e visão
Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, morreu nesta quinta-feira (1º), aos 59 anos, após uma rápida evolução da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurodegenerativa rara e progressiva. A morte foi confirmada pela esposa, Mila Seidl, nas redes sociais.
Lito ficou conhecido nacionalmente pelo canal “Aviões e Músicas”, criado a partir de seu trabalho com conteúdos sobre aviação. Formado em manutenção de aeronaves e com mais de 36 anos de experiência no setor, ele trabalhou em empresas como a United Airlines e se tornou referência ao explicar, de maneira acessível, assuntos como acidentes aéreos, turbulência, manutenção, procedimentos de segurança e funcionamento das aeronaves. O canal também ganhou destaque pelas análises de acidentes envolvendo nomes como os Mamonas Assassinas, a Chapecoense e Marília Mendonça.
Diagnóstico e rápida evolução
O diagnóstico da doença foi divulgado pela família em agosto. Nas semanas seguintes, o quadro avançou rapidamente, provocando perda progressiva de movimentos e parte da visão. Mesmo diante das limitações físicas, Lito manteve a lucidez durante o agravamento da doença e continuou consciente e capaz de conversar.
A família buscou alternativas para tentar retardar a evolução da condição. Lito chegou a ser o primeiro ser humano a receber a substância experimental ALN-6457 para o tratamento da DCJ. O medicamento chegou ao Brasil em setembro e teve autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso individual em caráter excepcional. O tratamento foi realizado no Hospital Israelita Albert Einstein.
Além da doença rara, Lito também enfrentava um câncer de próstata em estágio inicial, diagnosticado no começo deste ano.
A doença de Creutzfeldt-Jakob faz parte do grupo das enfermidades priônicas e está relacionada à alteração anormal de uma proteína. A condição provoca deterioração rápida das funções neurológicas. Segundo as informações divulgadas pelo Alô Alô Bahia, aproximadamente 90% dos pacientes morrem em até um ano. No Brasil, a DCJ é de notificação compulsória desde 2005 e, entre 2005 e 2021, foram registradas 1.576 notificações de casos suspeitos.
Uma história que começou pela internet
A história de Lito e Mila começou muito antes da doença. Os dois se conheceram pela internet, no início dos anos 2000, quando Mila procurava informações para perder o medo de voar e encontrou o blog de Lito sobre aviação.
O primeiro contato aconteceu pelo Skype. Durante a conversa, Lito passou horas explicando detalhes sobre aviação e respondendo às dúvidas de Mila. O encontro virtual acabou se transformando em uma relação afetiva.
Os dois moravam em cidades diferentes e Mila era 17 anos mais nova. O relacionamento avançou e, em 2015, eles já namoravam e viviam juntos. No ano seguinte, oficializaram a união.
Mila também teve participação importante na trajetória profissional do marido. Ela o incentivou a levar para o YouTube o conteúdo que já produzia no blog. Os dois estudaram a plataforma, compraram uma câmera e começaram a testar formatos até que o “Aviões e Músicas” conquistasse espaço na internet. Com o crescimento do canal, Mila deixou o emprego para trabalhar ao lado de Lito.
Em 2019, nasceu Malone, único filho do casal, hoje com 7 anos.
Família foi prioridade nos últimos meses
Durante o tratamento, a família esteve no centro das preocupações de Lito. Em um vídeo publicado em agosto, ele falou sobre o desejo de acompanhar o crescimento do filho e o receio de não ter tempo suficiente para participar de momentos importantes da infância de Malone.
Mila também contou que, durante o tratamento, Lito conversou com o filho sobre o chamado “ciclo da vida”. Segundo ela, a conversa aconteceu enquanto ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.
A esposa revelou, após a morte, que sua principal preocupação neste momento é preservar a memória do marido para o filho. Por isso, embora o velório tenha sido aberto ao público para que fãs e admiradores pudessem se despedir, Mila pediu que não fossem feitas fotos durante a cerimônia.
O velório acontece em São Paulo e reúne familiares, amigos e admiradores que acompanharam o trabalho de Lito ao longo de mais de 15 anos à frente do “Aviões e Músicas”.
Na despedida publicada nas redes sociais, Mila resumiu a relação construída ao longo dos anos com uma mensagem de carinho ao marido: “Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre”.