Em encontro religioso em Dharamshala, líder tibetano revela que seu sucessor nascerá fora da China, acende debate sobre autonomia tibetana e reforça legado global de compaixão
Às vésperas de completar 90 anos no próximo dia 6 de julho, o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, iniciou esta semana um encontro de três dias com mais de cem líderes budistas tibetanos em Dharamshala, local onde vive exilado desde 1959. Espera-se que, durante o evento, o líder espiritual sinalize pistas concretas sobre a identidade e o local de nascimento de seu sucessor, reafirmando que este nascerá fora da China.
O encontro, o primeiro desde 2019, marca o início das festividades em homenagem ao nonagenário líder e ocorre num momento particularmente tenso, em que a China insiste na prerrogativa de escolher um novo Dalai Lama, rotulando Tenzin Gyatso como separatista.
Recorrendo à tradição tibetana, baseada na reencarnação de monges iluminados, o atual Dalai Lama anunciou que consultará altos lamas, autoridades religiosas e a comunidade budista em geral. Ele pretende criar uma “estrutura” para discutir a continuidade da linhagem e destacou:
“Haverá algum tipo de estrutura dentro da qual possamos falar sobre a continuidade da instituição dos Dalai Lamas”.
Em vez de nascer no Tibete sob influência chinesa, o sucessor deverá ser “criado no mundo livre”, estratégia vista como decisiva para preservar a autonomia espiritual e cultural tibetana.
A instabilidade deste processo se intensificou após o episódio de 1995, quando Pequim prendeu um menino identificado como Panchen Lama – outra figura central do budismo tibetano – e nomeou outro, rejeitado pela comunidade tibetana. Este precedente reforça o temor de uma manipulação política chinesa no futuro dalailama.
Além disso, desde 2011, o próprio Dalai Lama renunciou ao poder temporal, transferindo responsabilidades a um governo tibetano-exílico democrático, o que indica sua disposição de preparar as bases para uma sucessão transparente e legítima.
A vice-presidente do Parlamento tibetano no exílio, Dolma Tsering Teykhang, afirmou que ouvir as orientações diretamente do Dalai Lama é crucial, ressaltando que Pequim tem tentado “difamá-lo a cada oportunidade… criando regras para controlar a reencarnação”.
Por sua vez, Thupten Jinpa, seu tradutor há quase 40 anos, sublinhou que a “continuidade da instituição persistirá”. Jovens tibetanos que falam à AFP expressam apreensão. O engenheiro Kunga Tashi, de 23 anos, lamenta que “hoje muitos jovens priorizam o sucesso pessoal à luta coletiva” e teme pelo futuro do povo tibetano sem a figura central do Dalai Lama.
Reconhecido internacionalmente com o Nobel da Paz em 1989, o Dalai Lama defende que sua reencarnação deve manter o propósito de ser “a voz da compaixão universal”. Ele mesmo acredita que pode viver até os 110 anos, embora tenha passado por cirurgia no joelho no ano passado.
Durante o encontro religioso, estarão presentes personalidades como o ator Richard Gere e autoridades indianas, incluindo o ministro Kiren Rijiju.
Neste momento delicado da história tibetana, o Dalai Lama busca assegurar que a sucessão espiritual não será usada como instrumento de dominação política por nenhuma potência, especialmente a China. A criação de uma estrutura consultiva, a escolha de um sucessor nascido em liberdade e a reafirmação do governo democrático no exílio indicam uma mudança consciente rumo à autonomia religiosa e cultural. A comunidade tibetana, apesar das tensões internas e pressões externas, mantém acesa a chama de sua identidade e resistência.