Levantamento mostra que, sem um salto na eficiência do trabalhador e melhorias tecnológicas, a redução da jornada de trabalho pode gerar impactos negativos na economia e na competitividade das empresas.
Nos últimos tempos, o debate sobre a redução da jornada de trabalho ganhou força nas redes sociais e nos corredores das empresas. A ideia de trabalhar menos dias para viver mais parece o cenário ideal, mas um estudo recente acendeu um sinal amarelo para essa transição no Brasil. Segundo a análise, a baixa produtividade média do trabalhador brasileiro ainda é o principal entrave para que modelos como a escala 5×2 (ou até a jornada de quatro dias) sejam adotados em larga escala sem prejudicar a economia.
O que dizem os números?
O levantamento destaca que o Brasil enfrenta um problema histórico: a produtividade estagnada. Para se ter uma ideia, dados comparativos mostram que, em alguns setores, são necessários quatro brasileiros para produzir o mesmo que um trabalhador em países desenvolvidos com tecnologia de ponta. Essa diferença não é culpa exclusiva do esforço individual do trabalhador, mas sim de um conjunto de fatores que inclui falta de investimento em tecnologia, infraestrutura precária e burocracia excessiva.
O estudo argumenta que, ao reduzir a carga horária sem que a produção por hora aumente, o custo para manter o negócio sobe. Para o consumidor final, isso pode significar preços mais altos; para o empresário, uma perda de competitividade frente ao mercado externo.
Por que é tão difícil mudar agora?
A transição para a escala 5×2 — onde se trabalha cinco dias e folga-se dois — já é realidade para muitos, mas o foco do debate atual gira em torno da redução das horas totais semanais sem redução de salário. De acordo com especialistas ouvidos para complementar o estudo, existem três grandes barreiras:
- Educação e Qualificação: A falta de mão de obra qualificada impede que processos sejam feitos de forma mais rápida e inteligente.
- Atraso Tecnológico: Muitas empresas brasileiras, especialmente as pequenas e médias, ainda operam com ferramentas manuais ou sistemas obsoletos que não permitem a automação de tarefas repetitivas.
- Custo Brasil: Os altos impostos e encargos trabalhistas fazem com que qualquer alteração na jornada tenha um peso financeiro muito maior para quem emprega.
O exemplo que vem de fora
Países que testaram a redução da jornada com sucesso, como Islândia e algumas empresas na Europa, têm uma característica em comum: alta digitalização. Lá, a tecnologia faz o “trabalho pesado”, permitindo que o humano foque na estratégia e na criatividade em menos tempo. No Brasil, o estudo sugere que o caminho precisa ser inverso: primeiro investimos em eficiência e tecnologia para, então, colhermos os frutos de uma jornada mais equilibrada.
A conclusão é que, embora o desejo por mais tempo livre seja legítimo e saudável, o país precisa de reformas estruturais que permitam ao trabalhador produzir mais em menos tempo. Sem esse equilíbrio, a mudança na escala pode acabar gerando desemprego ou inflação, o contrário do que se deseja.
Foto: Marcello Casal/Agência Brasil