Obra de Walter Salles, estrelada por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, narra a saga da família Paiva sob a ditadura militar e reafirma a força do cinema brasileiro no cenário internacional
O cinema brasileiro alcança um novo patamar de reconhecimento internacional com o drama “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. A aclamada produção acaba de ser eleita o segundo melhor filme de 2025 pelo prestigioso jornal norte-americano The New York Times, em uma lista elaborada pela crítica Alissa Wilkinson. A distinção consolida a trajetória de sucesso do longa, que já coleciona uma série de prêmios e elogios ao redor do mundo.
“Ainda Estou Aqui” é uma adaptação emocionante do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que mergulha na história real de sua própria família, em especial de sua mãe, Eunice Paiva. Ambientado a partir de 1970, em plena ditadura militar brasileira, o filme acompanha a incansável luta de Eunice (interpretada por Fernanda Torres) para manter sua família unida após o desaparecimento forçado de seu marido, o deputado federal Rubens Paiva, preso e torturado pelas autoridades do regime. O longa retrata não apenas a dor da perda e da incerteza, mas também a resiliência de uma mulher que se reinventou, tornando-se advogada e defensora dos direitos humanos e indígenas, mesmo enquanto enfrentava a doença de Alzheimer em seus últimos anos. Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres na vida real, interpreta Eunice em sua fase mais avançada, adicionando uma camada de profundidade e emoção à narrativa.
A crítica Alissa Wilkinson, do The New York Times, destacou a atuação “magnética” de Fernanda Torres, que já lhe rendeu um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Segundo Wilkinson, Torres consegue sobrepor todas as emoções de Eunice – o medo, a esperança, a dor – em sua performance. O filme, por sua vez, foi descrito como um drama que “acompanha os esforços de Eunice Paiva para manter sua família unida e ainda trabalhar como ativista após seu marido […] ser preso e desaparecer”. O único longa-metragem que superou “Ainda Estou Aqui” na lista do jornal foi o norte-americano “Sinners”, dirigido por Ryan Coogler.
Reconhecimento Internacional e a Voz da Memória
O filme de Walter Salles não é novato em aclamação. Antes mesmo do The New York Times coroá-lo, “Ainda Estou Aqui” já havia feito história no Oscar 2025, tornando-se o primeiro filme brasileiro a vencer a categoria de Melhor Filme Internacional. Além disso, foi indicado a Melhor Filme, um feito inédito para uma produção nacional. No Festival de Veneza de 2024, sua estreia foi marcada por dez minutos de aplausos e a conquista da Osella de Ouro de Melhor Roteiro. A lista de honrarias inclui ainda 51 outros prêmios, como o Satellite de Melhor Atriz para Fernanda Torres, o Goya de Melhor Filme Ibero-Americano e os Prêmios Platino de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz.
Walter Salles, conhecido por sua sensibilidade e habilidade em explorar dramas humanos complexos em cenários de grande relevância social – como visto em seus aclamados “Central do Brasil” (1998) e “Diários de Motocicleta” (2004) –, traz em “Ainda Estou Aqui” sua marca autoral. O filme não apenas resgata a memória de um período sombrio da história brasileira – a ditadura militar (1964-1985), marcada por censura, tortura, assassinatos e desaparecimentos políticos –, mas também oferece uma reflexão sobre a resiliência familiar e a busca incansável por justiça e verdade. O desaparecimento de Rubens Paiva é um dos casos mais emblemáticos de violações de direitos humanos daquele período, e o filme o aborda com a dignidade e a seriedade que o tema exige.
A história de Eunice Paiva e de tantas outras famílias impactadas pela repressão ditatorial é uma ferida aberta na sociedade brasileira. O filme de Salles serve como um poderoso lembrete da importância de preservar a memória, promover a justiça e garantir que tais atrocidades não se repitam. A repercussão internacional de “Ainda Estou Aqui” não apenas celebra a qualidade artística do cinema nacional, mas também amplifica a voz das vítimas e a necessidade de se manter vigilante contra o autoritarismo. Em um momento em que a polarização política e a desinformação desafiam os valores democráticos, a obra de Walter Salles ressoa como um grito de “ainda estou aqui” para a memória e a resistência.