Ex-presidente americano acusa o sistema de pagamentos brasileiro de ameaçar o domínio do dólar e critica influência do Pix em acordos comerciais internacionais; especialistas apontam desconforto geopolítico e interesses econômicos por trás das declarações
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu uma polêmica internacional ao criticar abertamente o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil. Em declarações recentes, Trump afirmou que o Pix representa uma “ameaça à soberania monetária americana” e insinuou que a expansão do sistema poderia comprometer a hegemonia do dólar em transações internacionais.
As falas do republicano ocorreram durante um comício nos Estados Unidos, mas rapidamente repercutiram na imprensa brasileira e internacional. Segundo Trump, o Pix estaria sendo usado como ferramenta de “cooptação” de países em desenvolvimento, oferecendo uma alternativa digital rápida e gratuita aos tradicionais sistemas de pagamento bancário dominados por instituições americanas.
A ascensão do Pix e seu impacto global
Criado em 2020, o Pix se tornou um dos sistemas de pagamento mais eficientes do mundo. Com mais de 160 milhões de usuários no Brasil, a plataforma é operada pelo Banco Central e permite transferências instantâneas 24 horas por dia, sem cobrança de taxas para pessoas físicas. Sua adoção cresceu exponencialmente, ultrapassando cartões de crédito e boletos bancários como principal forma de pagamento no país.
Nos últimos anos, países como Colômbia, Uruguai, Paraguai, Índia e Nigéria demonstraram interesse em adotar sistemas similares, inspirados no modelo brasileiro. A iniciativa do BC brasileiro, chamada LIFT (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas), vem exportando tecnologia e colaborando com outros bancos centrais no desenvolvimento de soluções instantâneas semelhantes ao Pix.
A preocupação dos EUA
Especialistas apontam que a preocupação americana com o Pix vai além do simples desconforto tecnológico. O modelo brasileiro representa uma alternativa descentralizada e estatal ao sistema financeiro internacional baseado em redes privadas americanas, como Visa e Mastercard, além de instituições como o SWIFT — sistema de comunicação entre bancos controlado majoritariamente por países ocidentais.
Trump, ao vocalizar essas críticas, articula um sentimento comum entre setores conservadores dos EUA: o temor de que o avanço de soluções financeiras locais ou governamentais possa desbancar o dólar como principal meio de troca e reserva de valor global.
Reação brasileira
O Banco Central do Brasil e o governo federal ainda não se pronunciaram oficialmente sobre as críticas. Economistas brasileiros, no entanto, reagiram com ceticismo às declarações de Trump, classificando-as como “exageradas” e motivadas por interesses eleitorais. O ex-presidente americano busca se fortalecer entre seus eleitores com pautas protecionistas, especialmente em um momento em que sua pré-candidatura à presidência em 2026 ganha tração.
Segundo o economista André Roncaglia, professor da Unifesp, “o Pix representa um avanço na democratização do acesso bancário, não uma ameaça geopolítica. Mas seu sucesso é incômodo porque reduz a dependência de redes de pagamentos privadas que, historicamente, geraram lucros bilionários para empresas americanas.”
Geopolítica e futuro
A polêmica evidencia a crescente disputa tecnológica e econômica entre países emergentes e potências tradicionais. O sucesso de soluções como o Pix acende alertas nos EUA e Europa sobre a autonomia financeira de países em desenvolvimento, além de evidenciar a possibilidade de mudanças no equilíbrio monetário global.
Enquanto isso, o Brasil segue liderando iniciativas de inovação no sistema financeiro, consolidando o Pix como uma referência internacional. Mesmo diante das críticas, o modelo se fortalece como símbolo de modernização e soberania digital.