Com pressão sobre setores-chave como café, carne e aviação, o governo brasileiro negocia exceções e prepara medidas internas em reação à proposta de taxa de 50% de Donald Trump para importações do Brasil.
Os Estados Unidos anunciaram a intenção de elevar tarifas sobre produtos brasileiros de 10% para impressionantes 50%, com vigência a partir de 1º de agosto de 2025. A medida, determinada por uma carta do presidente Donald Trump, está diretamente associada à acusação de que o Brasil estaria perseguindo politicamente o ex-presidente Jair Bolsonaro no decorrer de um processo judicial.
Em resposta, o Brasil pleiteia junto à Casa Branca exclusões para produtos como café, suco de laranja, suco de citronela e aeronaves produzidas pela Embraer, setores que seriam fortemente impactados.
O secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, sinalizou que bens não produzidos nos EUA — como café e cacau — podem ser isentos de tarifas em acordos comerciais futuros, refletindo políticas similares já implementadas com países como Indonésia e a União Europeia. Porém, não ficou claro se essa abordagem será aplicada ao Brasil, que ainda não possui acordo bilateral recente com os EUA.
O ministro da Fazenda brasileiro, Fernando Haddad, declarou que o presidente Lula ordenou todas as medidas possíveis para enfrentar o impacto das tarifas, descrevendo a ação norte-americana como “mal orientada”. Haddad ressaltou que o Brasil mantém déficit comercial com os EUA, contrariando a justificativa apresentada para as tarifas.
Como parte da estratégia de resposta, o governo prepara um plano de contingência que inclui linhas de crédito, apoio financeiro e isenções fiscais para cerca de 10 mil empresas brasileiras, a fim de preservar a confiança do setor privado e o investimento. Não está previsto, entretanto, o uso de isenções tributárias generalizadas.
Setores como o de aeroespacial (Embraer) enfrentam riscos elevados — com estimativas de perdas de até USD 1 bilhão em exportações de carne e declínio de lucros na empresa, que pode ter impacto de cerca de USD 150 milhões no lucro operacional entre agosto e dezembro. Já o segmento químico também registrou cancelamentos de contratos e financiamento suspenso após o risco tarifário ser formalizado.
Apesar dos esforços diplomáticos, o presidente Lula fez duras críticas à postura dos EUA, afirmando que o Brasil tentou, sem sucesso, estabelecer negociações: foram dez reuniões e uma carta formal enviada em 16 de maio, mas a única resposta foi uma publicação nas redes sociais de Trump em 9 de julho. Lula também ameaçou aplicar a Lei de Reciprocidade Comercial, aprovada pelo Congresso, para retaliar caso os EUA implementem a tarifa de 50%.
O Brasil mantém articulações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), denunciando o uso de tarifas como instrumento de interferência política, mas sem mencionar diretamente os EUA em fóruns multilaterais.
Além das alternativas diplomáticas, o país reafirmou seu compromisso com blocos como o BRICS, buscando diversificar parcerias comerciais e reduzir a dependência dos EUA. Especialistas destacam que o fortalecimento desses vínculos pode aumentar a resiliência do Brasil em cenários de guerra comercial.
Em síntese, o Brasil articula resposta em três frentes: negociações diplomáticas por exceções setoriais, apoio interno com crédito e medidas econômicas, e posicionamento internacional via OMC e cooperação com parceiros globais.