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Estudantes baianas ganham prêmio internacional com jogo de tabuleiro inspirado no Ilê Aiyê

Reprodução / Redes sociais
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Projeto de escola pública em Ponto Novo celebra a cultura afro, identidade e autoestima ao receber reconhecimento além-fronteiras

No interior da Bahia, duas jovens estudantes transformaram sala de aula e cultura em instrumento de empoderamento. Raquel de Jesus e Alessandra de Jesus, alunas do Colégio Estadual de Tempo Integral Nelson Maia, em Ponto Novo, criaram um jogo de tabuleiro inspirado no bloco afro Ilê Aiyê e foram premiadas internacionalmente no Encontro Sul-Americano de Ciências e Tecnologia, que ocorreu em Assunção, no Paraguai. O destaque veio na categoria “História e Antropologia de Ciências Sociais”, levando o troféu de Destaque Internacional.

Origem e inspiração do projeto

O jogo surgiu dentro da disciplina “Arte e História dos Meus Ancestrais”, sob orientação da professora Noemia Cruz. Durante as aulas, os alunos assistiram ao documentário Ilê Aiyê – A Casa do Mundo, que provoca discussões sobre ancestralidade, racismo, pertencimento e identidade racial.

Esse tema não apenas motivou as alunas a criarem o jogo, mas também sensibilizou os colegas para a riqueza da cultura negra presente no bloco, estimulando autoestima. Raquel disse ter sofrido bullying, e Alessandra destacou o desejo de exaltar a juventude negra.

Detalhes do jogo

O tabuleiro foi construído com 50 cartas — cada uma remetendo aos 50 anos do Ilê Aiyê, comemorados em novembro de 2024. Ele incorpora características simbólicas e mecânicas que reforçam sua proposta educativa antirracista:

  • Perguntas objetivas e subjetivas sobre figuras ligadas ao Ilê, como Mãe Hilda Jitolu, Margareth Menezes, Carla Akotirene e Vovô do Ilê.
  • Uso de búzios para movimentar peças no tabuleiro.
  • Um caminho em “S” até o espaço simbólico “Senzala do Barro Preto”.
  • Foco no aprendizado coletivo em vez da competição, valorizando a oralidade, ancestralidade e cultura afro-baiana.

O projeto foi desenvolvido também durante uma fase em que celulares estavam proibidos em sala de aula, o que tornou o jogo não só ferramenta de aprendizagem, mas de convivência e aproximação entre as alunas.

Reconhecimento e impactos

Além do prêmio internacional, o projeto tem impacto direto na percepção dos alunos sobre si mesmos:

  • Ele promove orgulho racial, identidade e pertencimento, principalmente entre jovens negros.
  • Favorece a representatividade, mostrando que a cultura negra pode e deve ser parte dos currículos escolares.
  • Estimula os alunos a refletirem sobre sua história, ancestralidade e também a potência da cultura local.

As idealizadoras pretendem agora expandir o uso do jogo em outras escolas no estado, com novas versões, para que mais estudantes se beneficiem dessa forma de educação cultural.

Contexto mais amplo e importância

Este prêmio reforça uma tendência crescente no Brasil: o uso de educação antirracista e cultura afro-brasileira como partes centrais do aprendizado, não como complemento. Instituições educacionais têm trazido temas como ancestralidade, racismo, pertencimento e identidade escrevendo currículos mais inclusivos.

O Ilê Aiyê, fundado em 1974 em Salvador, é um bloco afro com atuação muito além dos carnavais: ele representa resistência, valorização da ancestralidade africana e luta contra o racismo estrutural. Sua trajetória inspira projetos culturais e educacionais em todo o país.

Esse tipo de iniciativa também dialoga com políticas públicas de educação que se propõem a promover equidade racial, diversidade cultural e currículo que reflita a pluralidade da sociedade brasileira.