Com a diretriz assinada pela administração de Donald Trump, quem busca visto estadunidense precisará comprovar não só os vínculos com o país, mas também o estado de saúde e a capacidade financeira para arcar com tratamento — e o Brasil pode ser impactado.
A partir de novembro de 2025, o governo dos Estados Unidos decidiu adotar uma nova abordagem na concessão de vistos que vai além da verificação tradicional de antecedentes criminais, situação econômica ou laços com o país. Agora, o estado de saúde dos candidatos está em foco — e condições como obesidade grave, diabetes, doenças cardiovasculares ou neurológicas, além de transtornos mentais, podem ser considerados fatores de recusa de visto.
O que muda na prática
Historicamente, os requerentes de visto para os EUA passavam por exame médico apenas para verificar doenças transmissíveis ou faltas de vacinas. Com a nova diretriz, o United States Department of State enviou um memorando (“cable”) para consulados e embaixadas orientando que se leve em conta — além de outras variáveis — se o candidato possui condições que possam levar a um “encargo público” (“public charge”), ou seja, depender de assistência do governo americano.
Entre os critérios que caem sob análise estão:
- Doenças crônicas como diabetes, hipertensão, falências cardíacas ou problemas respiratórios.
- Obesidade grave – o documento associa especificamente ao maior risco de apneia, hipertensão, asma e outros quadros que exigem acompanhamento de longo prazo.
- Saúde mental ou neurológica que possa implicar em alta demanda de tratamento.
- Capacidade financeira para arcar com tratamentos ou internações no futuro, sem recorrer a benefícios públicos.
- Mesmo que o candidato esteja saudável, o estado de saúde de dependentes ou familiares que viajam junto pode ser levado em conta.
Quem será mais afetado
Embora a nova regra de saúde se aplique a solicitantes de vistos em geral, especialistas apontam que o impacto maior pode ser sentido por candidatos a visto de imigrante (residência permanente) e familiares que dependem desse tipo de procedimento.
Para brasileiros que sonham em morar, estudar ou trabalhar nos EUA, isso significa que não basta comprovar emprego ou estudo: será necessário demonstrar boa saúde e estrutura financeira adequada para tratamentos. Também pode despertar preocupação entre quem já mora no exterior e possui familiares no Brasil que pretendem buscá-los — o fato de o dependente ter condição clínica significativa pode comprometer o pedido.
Por que essa política está sendo implementada
A administração Trump justifica a mudança ao afirmar que o sistema de imigração deve priorizar pessoas que não representem risco à sociedade ou ao Tesouro dos EUA. As autoridades afirmam que os custos de tratamentos médicos de longo prazo, internações ou assistência pública podem pesar para o país.
No cenário global, a medida aparece como mais uma face da política de restrição migratória que a atual gestão vem defendendo — em conjunto com outras iniciativas, como revisão de vistos de trabalho, exigências mais rígidas para estudantes estrangeiros e controles mais amplos sobre fluxo migratório.
Reflexos para o Brasil e para quem planeja ir aos EUA
- Brasileiros que planejam imigrar ou permanecer por longo período nos EUA precisarão estar atentos à saúde — o diagnóstico de uma doença crônica ou obesidade severa pode pesar na análise.
- Universitários, profissionais com visto de trabalho temporário ou pessoas em trânsito para estadias curtas podem, em princípio, ser menos impactados, mas a mudança de panorama cria incerteza e deve ser acompanhada com cuidado.
- O setor de imigração, consultorias e advogados já alertam para o fato de que essa diretriz amplia bastante o poder dos oficiais consulares — o que pode gerar decisões menos previsíveis ou mais dependentes de casos individuais.
- Em termos práticos, candidatos devem fornecer documentação mais completa sobre saúde, histórico médico, seguros, recursos financeiros, além de preparo para explicar e comprovar que não se tornarão dependentes do sistema público americano.
- A medida incentiva também a reflexão sobre o que significa migração — não apenas como fluxo de pessoas, mas como acesso condicionado por fatores econômicos, sociais e, agora, de saúde.
O que ainda não está claro
- Até o momento, não há uma lista pública oficial completa de todas as condições que levarão à recusa automática — a diretriz fala em “condições como, mas não se limitando a” obesidade, doenças metabólicas e outras.
- Também não se sabe exatamente como será aplicado para vistos temporários vs vistos de imigrante — se haverá distinção ou se a regra será uniforme para todos os solicitantes.
- Ainda não há dados transparentes sobre o número de vistos que serão negados com base exclusivamente nos novos critérios de saúde — o impacto real prático ainda será visto com o tempo.