Whisky, gin e vodka falsificados eram produzidos em chácara no interior; autoridades investigam intoxicações por metanol no estado
Uma operação da Polícia Civil de São Paulo no dia 30 de setembro de 2025 revelou uma fábrica clandestina de bebidas alcoólicas adulteradas em Americana, interior paulista. O local funcionava em uma chácara, onde se produziam e embalavam destilados como whisky, gin e vodka falsificados. No total, foram apreendidos mais de 17.700 itens ligados ao processo de falsificação — como garrafas vazias, recipientes, tampas e rótulos — e duas pessoas foram presas.
A descoberta ocorre em meio a um surto de casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas no estado de São Paulo, que já resultou em mortes e internações. Ainda que nessa operação específica não tenha sido encontrada contaminação por metanol, as autoridades seguem investigando conexões entre casos e redes criminosas.
Como funcionava a operação
A fábrica ilegal estava equipada para o processo completo de produção dos destilados falsos: desde o envasamento até o acabamento final das garrafas. O endereço já era investigado há mais de um mês pelas autoridades.
Parte da produção também era comercializada pela internet, com apoio de plataformas de comércio eletrônico que ajudavam a expandir o alcance dos produtos falsos além da região de Americana, alcançando a capital paulista.
Durante a ação, foram apreendidos tonéis, rolos de adesivos com rótulos de marcas conhecidas, recipientes usados para armazenamento e transporte de líquidos, além de garrafas vazias e cheias para análise pericial posterior.
Operações complementares e novos alvos
Após a apreensão da fábrica em Americana, outras frentes de investigação foram ativadas na capital e nos arredores de São Paulo:
- Fornecedores do bar Ministrão — o Ministério Público e a Vigilância Sanitária realizaram buscas em estabelecimentos no bairro da Bela Vista, identificados como possíveis fornecedores de bebidas adulteradas. Foram apreendidas caixas de garrafas suspeitas de marcas famosas, especialmente cachaças.
- Fechamentos de bares — na cidade de São Paulo, seis bares foram interditados por indícios de comercialização de bebidas falsificadas. Um deles é o bar “Ministrão”, que figura nas investigações de intoxicação por metanol.
- Regiões de ação — além de Americana, operações também tocaram bairros nos Jardins, Mooca e cidades da Grande São Paulo como Barueri.
Metanol e os riscos da adulteração
O metanol é uma substância extremamente tóxica, usada industrialmente em solventes e combustíveis, que não pode estar presente em bebidas alcoólicas para consumo humano. Mesmo em doses pequenas, pode provocar cegueira irreversível ou morte.
Em 2025, o Brasil enfrenta um surto de intoxicações por metanol associado a bebidas falsificadas. Em São Paulo, ao menos três mortes foram oficialmente confirmadas até agora. Investigadores suspeitam que parte do metanol usado na adulteração seja importado ilegalmente e distribuído por redes criminosas.
Os sintomas costumam se manifestar entre 12 e 24 horas após consumo e incluem náuseas, vômitos, dor abdominal, confusão mental e distúrbios visuais. Tratamentos precoces com antídotos, hidratação e hemodiálise podem reduzir risco de danos permanentes.
O cenário nacional: expansão da falsificação de bebidas
Levantamentos recentes indicam que cerca de 36% das bebidas comercializadas no Brasil podem ser falsificadas, segundo a Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares de São Paulo (Fhoresp). Essa estimativa reflete um crescimento da prática ilícita em resposta à alta carga tributária e à fiscalização ainda frágil.
Esse panorama torna ainda mais urgente a ação integrada entre órgãos de segurança, vigilância sanitária e regulação do comércio eletrônico para conter a disseminação dessas bebidas adulteradas.