Motivado pelos traumas da infância, o youtuber Felca investiga por mais de um ano a sexualização precoce de menores na internet e, após viralizar seu vídeo “Adultização”, enfrenta consequências pessoais enquanto acende um debate crescente no país.
Felipe Bressanim Pereira, de 27 anos — mais conhecido como Felca — ganhou visibilidade com um vídeo poderoso publicado em 6 de agosto de 2025. Chamado “Adultização”, o conteúdo denunciou a exposição sexualizada de crianças e adolescentes nas redes sociais, viralizando em pouco tempo e ultrapassando 50 milhões de visualizações, segundo a CNN Brasil.
Mas o que motivou essa denúncia? Em entrevista ao programa Conversa com Bial, Felca revelou suas cicatrizes de infância: “Eu fui uma criança muito sozinha e abandonada. Eu não tinha voz e, quando falava, não tinha ninguém para escutar… Eu fiz isso pela criança que fui”. Ele confessa que decidiu agir ao se deparar com pessoas próximas que tinham sido vítimas de abuso ainda crianças, e a impossibilidade de consolá-las o levou a se aprofundar no tema.
O vídeo “Adultização” foi resultado de mais de um ano de investigação. Após publicá-lo, Felca enfrentou forte reação: contratos de publicidade foram cancelados e ele ficou um mês sem receber renda pela sua atividade online. Também recebeu ameaças e sofreu difamações. Mas, mesmo assustado, insistiu: “Estou fazendo algo que é mais importante do que eu. Não vou conseguir parar”.
A repercussão gerou efeitos reais. Os casos denunciados no vídeo chegaram a resultar na prisão do influenciador Hytalo Santos — alvo de investigação do Ministério Público da Paraíba por tráfico de pessoas, exploração sexual infantil e outras acusações —, além de ter levado à desativação das contas de menor envolvido, e à proibição de monetizar seus conteúdos com crianças.
Especialistas alertaram para os danos psicológicos que a exposição precoce causa: segundo o psiquiatra Maurício Okamura, “isso pode causar confusão em relação à identidade, vínculos e limites pessoais, impactando a formação da autoconfiança e do equilíbrio emocional”.
A mobilização chegou ao Legislativo e ao Judiciário. Foram apresentados projetos na Câmara — muitos apelidados de “Lei Felca” — para criminalizar e penalizar a exploração infantil digital. A Justiça determinou também que plataformas como o YouTube adotem alertas claros sobre a proibição de publicidade infantil abusiva, além de canais específicos para denúncias.
Felca, que já carrega diagnósticos de ansiedade social e está no espectro autista, foi reconhecido pela Associação Brasileira de Psiquiatria como Parceiro Nacional da Saúde Mental, destacando sua atuação na luta contra o preconceito e a desinformação.