Ferramentas tecnológicas já conseguem antecipar áreas de risco com até 15 dias de antecedência, oferecendo nova esperança para monitoramento e ação preventiva
O combate ao desmatamento ilegal na Amazônia Legal está vivendo uma nova etapa graças ao uso de tecnologias alimentadas por inteligência artificial (IA). Recentemente, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) atualizou um sistema de previsão que identifica com mais precisão — e em curtíssimo prazo — quais locais da floresta têm maior risco de desmate ou queimadas.
Como funciona a tecnologia
O sistema batizado de Deforestation Prediction System (ou Sistema de Previsão de Desmatamento) está integrado à plataforma TerraBrasilis, mantida pelo INPE, e tem como diferencial o uso de algoritmos de IA que analisam dados históricos de desmatamento, localização de estradas (legais e ilegais), proximidade de rios e outros vetores, além de dados climáticos e de queimadas.
Com isso, o sistema já consegue prever com uma antecedência de aproximadamente 15 dias quais pequenas áreas poderão sofrer desmatamento, permitindo que equipes de fiscalização e proteção ambiental se mobilizem com antecedência. Segundo os especialistas envolvidos, a nova versão reduziu cerca de 75% dos erros da versão anterior.
Resultados e alcance
De acordo com os dados mais recentes, a tecnologia mostra que na previsão para o período agosto de 2024 a julho de 2025, cerca de 6.531 km² estariam sob algum risco de desmatamento, segundo a plataforma PrevisIA desenvolvida pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Deste total, cerca de 2.269 km² aparecem sob risco muito alto, alto ou moderado — ou seja, áreas que devem ser priorizadas.
Os estados que concentram as maiores áreas de risco são o Pará (aproximadamente 35% do total estimado), o Amazonas (20%) e o Mato Grosso (17%).
Por que isso faz diferença
A principal vantagem desse tipo de tecnologia é justamente sua capacidade de dar antecedência ao combate ao desmatamento. No passado, era necessário que o desmatamento já estivesse em curso para que pudesse ser localizado por satélite ou por alerta humano. Agora, com os modelos de IA, há previsão da provável ocorrência, o que permite ações mais rápidas e preventivas.
Além disso, o uso de IA também permite “escarafunchar” variáveis complexas — como estradas clandestinas recentes, proximidade de assentamentos, mudanças no uso do solo, áreas que antes de aparecer no radar de fiscalização já estavam comprometidas. Essa combinação entre dados de solo, clima e histórico de degradação torna o trabalho mais eficiente.
Desafios que ainda permanecem
Apesar dos avanços, há alguns pontos de atenção importantes:
- A previsão de áreas de risco não substitui a necessidade de presença física e fiscalização forte no campo — a tecnologia é ferramenta, não solução completa.
- A execução dessas ações exige coordenação entre diferentes órgãos (federais, estaduais, IBAMA, etc), logística adequada (acesso às áreas remotas) e recursos humanos e financeiros suficientes.
- Mesmo áreas com “risco menor” segundo o modelo ainda precisam de monitoramento constante, porque a dinâmica do desmatamento pode mudar rapidamente.
- O cumprimento das metas de desmatamento zero até 2030 depende tanto das tecnologias quanto de políticas públicas fortes, regularização fundiária, melhoria da governança territorial, combate à extração ilegal e apoio às comunidades locais.
O que vem pela frente
Com a tecnologia se tornando mais precisa e acessível, as expectativas são de que nos próximos anos o modelo de previsão avance ainda mais — com dotações mais refinadas, cobertura espacial mais ampla, integração com organizações locais e até mesmo mecanismos de alerta para populações indígenas e tradicionais. Por exemplo, estudiosos apontam que o grau de acerto da PrevisIA está em torno de 73% desde 2021.
Se bem aproveitada, essa junção entre IA e políticas ambientais pode impulsionar o Brasil rumo a um modelo de proteção da floresta que une tecnologia, governança e participação comunitária — e ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, proteger a biodiversidade e garantir os direitos dos povos que vivem na Amazônia.