O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determinou, nesta quarta-feira (29), a interdição de uma área de estacionamento no complexo da Santa Casa de Misericórdia de Salvador, no bairro central da Pupileira, após escavações arqueológicas apontarem que aquele terreno funcionou durante mais de um século como cemitério de pessoas escravizadas — um dos maiores da América Latina.
Uma descoberta profunda na história e na memória de Salvador : pesquisadores identificaram que o atual estacionamento da Pupileira, vinculado à Santa Casa, pode estar assentado sobre o que foi um cemitério clandestino em que restos mortais de entre 80 mil e 100 mil pessoas escravizadas foram enterrados em valas comuns ao longo de aproximadamente 150 anos — entre os séculos XVIII e XIX.
A pesquisa que revelou esse achado partiu da doutoranda da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Silvana Olivieri, que comparou mapas históricos com imagens de satélite modernas para localizar o antigo “Cemitério dos Africanos” naquela área. As escavações iniciaram em 14 de maio de 2025 e logo foram encontradas fragmentos de porcelanas, objetos do século XIX e justamente ossadas humanas.
Qual a importância desse local?
O Iphan, em seu relatório, considerou que o terreno configura um sítio arqueológico — ou seja, um local com vestígios históricos relevantes que devem ser preservados. A interdição foi determinada para evitar que o efeito do tráfego de veículos no estacionamento e outras atividades comprometam a integridade dos achados.
Além disso, o local tem significado simbólico e histórico muito grande porque representa um cenário até então pouco visibilizado : o enterro sistemático de pessoas escravizadas, indígenas, ciganos e pessoas em situação de pobreza, enterradas sem cerimônia, sem identificação, em valas comuns — como revelam as investigações.
Como era o funcionamento?
- Segundo a pesquisa, o cemitério funcionou por cerca de 150 anos, até 1844, quando a Santa Casa passou a administrar outro cemitério (o Cemitério do Campo Santo, na Federação).
- Os sepultamentos eram feitos em valas comuns, muitas vezes sem cerimônia religiosa, e o local atendia majoritariamente pessoas escravizadas ou de condição social vulnerável.
- Estimativas apontam que, na área de aproximadamente 2 000 m² — onde hoje há três vagas de estacionamento — poderiam estar enterrados entre 80 mil e 100 mil corpos.
Qual o impacto agora?
A interdição da área abre caminho para vários desdobramentos importantes:
- A desocupação do estacionamento, para que veículos deixem de passar sobre o local e assim não danificar vestígios arqueológicos.
- A continuidade das pesquisas arqueológicas, que poderão trazer mais precisão em relação aos números, aos perfis das pessoas enterradas e às circunstâncias históricas desses sepultamentos.
- A possibilidade de criação de um centro de memória ou museu no local, que reconheça a importância dessa necrópole e promova reflexão sobre o passado da escravidão, a herança negra e as desigualdades históricas.
Por que esse achado importa para a sociedade?
Esse tipo de descoberta rompe o silêncio em torno da história de corpos que foram invisibilizados — literalmente enterrados em valas comuns — e que, apesar de terem contribuído para a construção social, econômica e cultural do Brasil, permanecem apagados dos mapas de memória e patrimoniais. Como alertam pesquisadores, é também uma chamada para entender que as desigualdades atuais têm raízes profundas no passado da escravidão.
Para a capital baiana e para o país, a preservação e reconhecimento desse espaço significa:
- reafirmar a dignidade dessas vidas e dar conta da dimensão histórica da escravidão em Salvador;
- abrir um diálogo sobre memória, reparação, identidade negra, patrimônio cultural e arqueologia social;
- construir um local de reflexão que possa conectar passado e presente — e ajudar a formar uma consciência cidadã mais ampla.
Desafios que vêm pela frente
- Garantir financiamento e estrutura para as escavações arqueológicas, catalogação dos vestígios, documentação dos achados e abertura pública de resultados.
- Definir juridicamente o local como sítio arqueológico sob tutela, impedindo seu uso para atividades que comprometem sua integridade, como estacionamento, construções, etc.
- Desenvolver um projeto participativo envolvendo as comunidades negras, movimentos sociais, pesquisadores, e as instituições públicas, para que o centro de memória ou museu que se instalar venha a refletir as vozes daqueles que foram enterrados ali — não apenas como objetos de estudo, mas como sujeitos de história.
- Integrar esse reconhecimento às políticas de educação, cultura, turismo e direitos humanos, de modo que o lugar não seja engessado apenas como relíquia, mas como instrumento vivo de ensino e transformação.
Este é um momento de reverência e também de ação — porque reconhecer essa necrópole é também responder ao legado de injustiça histórica que se prolonga até hoje.