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Medicamento brasileiro promete restaurar movimento após lesão na medula

Foto: Divulgação/UFRJ
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Polilaminina, derivada da placenta humana, mostrou resultados inéditos em pacientes tetraplégicos e paraplégicos

Um tratamento inovador, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório Cristália, pode marcar um avanço sem precedentes no tratamento de lesões medulares. A substância chamada polilaminina — proteína derivada da placenta humana — foi testada em pacientes que haviam sofrido lesões completas na medula, resultando em recuperação parcial ou total dos movimentos em casos de paraplegia ou tetraplegia.

Como funciona o tratamento

A polilaminina age diretamente na medula espinhal, promovendo regeneração neural. O procedimento envolve administração única, em microgramas por quilo, aplicada diretamente na coluna dentro de até seis dias após o trauma. Após a aplicação, os pacientes passam por fisioterapia intensiva para potencializar os efeitos do tratamento.

Resultados promissores

Em estudos experimentais conduzidos desde 2018 com seis pacientes portadores de lesão medular completa (nível A), cinco avançaram para níveis de recuperação motora (nível C), recuperando força e movimentos.

Um exemplo marcante é o do analista Bruno Drummond, que ficou tetraplégico aos 23 anos após um acidente de carro. Ele recebeu a substância 24 horas após o trauma. No primeiro mês, conseguiu mover o dedão do pé; hoje caminha novamente e recuperou quase todo o movimento dos braços. Já a atleta paralímpica Hawanna Cruz Ribeiro, lesionada em 2017, recuperou cerca de 60% a 70% da mobilidade do tronco e parte da sensibilidade após três anos de lesão.

Em estudos com animais, os resultados foram igualmente expressivos: cães com lesões na medula retomaram a marcha, e ratos reagiram à aplicação em até 24 horas.

Por que a polilaminina é revolucionária

A laminina, proteína naturalmente presente no organismo durante o desenvolvimento neuronal, foi estudada por mais de 25 anos pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ. Ela identificou que a polilaminina tem efeito duplo: neuroproteção (contém os danos) e indução de regeneração dos neurônios. Em comparação com terapias com células-tronco, este tratamento oferece maior previsibilidade e segurança.

Etapas para aprovação e futuro

A próxima fase será o ensaio clínico de fase 1, apenas após autorização da Anvisa. Essa etapa incluirá cerca de cinco pacientes e é essencial para avaliar segurança e efeitos em humanos. Os pesquisadores esperam obter liberação nos próximos meses. Estima-se que o medicamento possa ser disponibilizado em hospitais brasileiros em até três anos, caso os testes avancem conforme o previsto.

Enquanto isso, hospitais como o Hospital das Clínicas da USP e a Santa Casa de São Paulo já se preparam para participar das próximas fases, e a coleta voluntária de placentas – matéria-prima do tratamento – já está sendo organizada.

Importância e cautela

Embora os resultados preliminares sejam animadores e tragam esperanças reais para milhares de pessoas com lesão medular, especialistas alertam que é preciso cautela. O número limitado de pacientes e a ausência de ensaios controlados com placebo impedem qualquer conclusão definitiva, sendo ainda necessário validar segurança e eficácia em estudos mais amplos.

A polilaminina representa um salto potencial para a medicina regenerativa no Brasil. Se confirmada sua eficácia nos ensaios clínicos, pode transformar o quadro de pacientes com lesões medulares, oferecendo esperança real onde até então havia limitações severas e poucas opções terapêuticas.