A crescente presença feminina nas baterias das escolas de samba desafia barreiras históricas e promove igualdade no Carnaval.
O Carnaval de 2025 no Rio de Janeiro, que consagrou a Beija-Flor de Nilópolis como campeã do Grupo Especial, evidenciou uma crescente participação feminina nas baterias das escolas de samba. Apesar desse avanço, as mulheres ritmistas ainda enfrentam desafios importantes, especialmente relacionados ao preconceito de gênero.
Historicamente, como as baterias das escolas de samba eram redutos masculinos, onde a presença feminina era limitada a funções específicas, como passistas e musas. Entretanto, essa realidade vem sendo transformada. Um marco nessa mudança ocorreu em 2006, quando a Estação Primeira de Mangueira, quase após 80 anos de tradição exclusivamente masculina, abriu espaço para mulheres em sua bateria. Na época, o presidente da escola, Alvinho Caetano, percebeu que a exclusão feminina era um preconceito velado sob o rótulo de tradição.
Em 2017, uma discussão sobre machismo e racismo no Carnaval ganhou destaque. Mulheres ritmistas contando experiências de discriminação e luta por reconhecimento em um ambiente predominantemente masculino. Esses profissionais destacaram a necessidade de questionar letras de músicas e comportamentos que perpetuavam estereótipos e preconceitos.
A inclusão feminina não se limita às baterias. Em Porto Alegre, as mulheres ocupam posições de destaque na produção de enredos e na direção de escolas de samba, áreas antes dominadas por homens. Essa mudança reflete uma busca pela igualdade e reconhecimento das capacidades femininas em todas as esferas do Carnaval.
Entretanto, persiste uma luta contra o preconceito. Bianca Monteiro, rainha de bateria da Portela, criticou o machismo no Carnaval, enfatizando que as mulheres são muito mais do que os corpos desenhados na avenida. Ela ressaltou a importância de valorizar a competência e dedicação das mulheres no samba.
A representatividade trans também avançou no samba. Marcelly Morena, em 2016, tornou-se a primeira mulher trans a desfilar como passista no Carnaval do Rio de Janeiro. Sua trajetória inspira outras pessoas a buscarem espaço no mundo do samba, enfrentando preconceitos e quebrando barreiras.
A Banda Didá, de Salvador, é outro exemplo de empoderamento feminino no samba. Fundada pelo músico Neguinho do Samba, a banda é composta exclusivamente por mulheres e tem como objetivo promover a igualdade de gênero através da música e da educação. Sua atuação tem sido fundamental para a inclusão feminina na percussão, área tradicionalmente masculina.
A presença feminina nas baterias de samba é uma conquista significativa, mas ainda há um longo caminho a percorrer para plena igualdade. A desconstrução de preconceitos e a valorização do talento feminino são essenciais para que o Carnaval seja, de fato, uma festa de todos.