Quando a música muda, a gente muda junto — e às vezes nem sabe como se sentir sobre isso
Outro dia me vi dançando uma música que, se eu parar para ouvir com atenção, acho exagerada. Letra direta demais. Algumas palavras que me deixam desconfortável.
Mas lá estava eu… dançando.
Já aconteceu com você também?
E o mais curioso: enquanto eu dançava, uma parte de mim curtia. A outra julgava.
E fiquei ali, no meio dessas duas versões de mim mesma.
Talvez seja exatamente isso que me fez querer escrever sobre música. Não para defender estilos. Nem para criticar gerações. Mas para falar dessa sensação estranha — e muito comum — que muitas de nós vivemos hoje.
A gente dançava sem pensar tanto… lembra?
Eu fui dançarina. Dancei muita coisa que hoje, se escuto sentada, analiso diferente. Na época, a música chegava primeiro no corpo. Depois — se chegasse — na cabeça.
Era verão, festa, carnaval, som ligado, energia alta. A letra vinha junto, claro, mas meio diluída no ritmo, na coreografia, no clima. A gente cantava sem prestar muita atenção. Ou prestava, mas fingia que não.
As músicas tinham duplo sentido. Tinham malícia. Tinham sexualização. Isso é fato.
Mas vinham disfarçadas. Era tudo mais sugerido do que dito.
E, naquele contexto, funcionava.
Hoje eu escuto diferente. Mas não só porque amadureci.
É claro que a maturidade muda a escuta. Hoje eu ouço com mais consciência. Com outro repertório. Com outro lugar de mulher.
Mas não é só isso.
Algumas músicas atuais são realmente muito diretas. Não deixam margem para interpretação. Não brincam com a metáfora. Dizem tudo, do jeito mais cru possível.
E isso incomoda.
Não sempre. Não todas. Mas algumas, sim.
E não acho que seja exagero admitir isso.
Você também sente esse incômodo às vezes? Ou finge que não sente?
Ao mesmo tempo… eu continuo dançando.
E aqui entra a parte que eu quase não vejo ninguém dizer em voz alta:
mesmo achando exagerada, às vezes eu gosto da música. Gosto do ritmo. Danço. Me envolvo.
Depois penso: “ué, mas eu não critiquei isso?”
E aí vem o julgamento interno.
Essa contradição toda.
Mas talvez isso não seja incoerência. Talvez seja só humanidade.
Antes era implícito. Hoje é explícito. E isso muda a sensação.
Não acho que antes fosse melhor. Nem que hoje seja pior.
Acho que é diferente.
Antes, muita coisa vinha camuflada em humor, metáfora, insinuação. Hoje, vem escancarada. Isso muda a experiência de quem ouve — principalmente quando a gente já não está mais vivendo tudo no automático.
A palavra direta pesa mais do que o duplo sentido. Não dá para fingir que não ouviu. Não dá para “deixar passar” tão fácil.
E talvez por isso a música, hoje, nos atravesse de outro jeito.
Conversar com nossos filhos ajuda a relativizar
Ouvindo minha filha e as amigas dela, percebo que, para elas, não existe essa grande ruptura. Elas dizem que a entonação é parecida. Que o impacto é semelhante. Que a diferença está só no vocabulário.
E fico pensando: será que somos nós que mudamos o filtro?
Ou será que a música perdeu mesmo um pouco da sutileza?
Talvez as duas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.
Não é sobre certo ou errado. É sobre perceber.
Esse texto não é um pedido de censura. Nem um saudosismo disfarçado.
É só uma conversa honesta sobre perceber o próprio incômodo — sem culpa e sem pose.
Sobre admitir que:
- às vezes a música exagera, sim
- às vezes a gente se incomoda, sim
- às vezes a gente dança mesmo assim
- e às vezes se julga por isso
Quem nunca?
Talvez crescer seja isso
Talvez crescer seja dançar e pensar. Curtir e questionar. Gostar e estranhar ao mesmo tempo.
Talvez o problema não seja a música.
Nem a nossa idade.
Talvez seja só o fato de que hoje escutamos com mais camadas.
E tudo bem.
Plena além dos 40 não é ter todas as respostas.
É ter coragem de admitir as próprias contradições — e ainda assim continuar dançando.
E você… quando foi a última vez que se pegou fazendo exatamente isso?