Há 35 anos, Sergei Krikalev passou mais do que o dobro do tempo planejado na estação espacial Mir após o colapso da União Soviética.
Imagine viajar para o espaço representando uma das maiores superpotências do planeta e, meses depois, descobrir que o seu país simplesmente sumiu do mapa enquanto você estava em órbita. Foi exatamente isso o que aconteceu com o cosmonauta soviético Sergei Krikalev há 35 anos, em uma das histórias mais surreais e fascinantes da exploração espacial.
Em maio de 1991, Krikalev decolou rumo à estação espacial Mir para uma missão que deveria durar apenas cinco meses. No entanto, o que era para ser uma jornada de rotina se transformou em um teste extremo de sobrevivência e paciência devido aos rumos da geopolítica na Terra.
O colapso da União Soviética
Em dezembro de 1991, a União Soviética se fragmentou e deixou de existir, dividindo-se em 15 nações independentes. No meio de toda a confusão política e da enorme crise econômica que se instalou, a agência espacial que gerenciava a missão ficou sem dinheiro e sem recursos para trazer o cosmonauta de volta para casa. O cosmódromo de Baikonur, de onde partiam os foguetes de resgate, acabou ficando em território do agora independente Cazaquistão, o que gerou impasses diplomáticos e financeiros.
Enquanto seus colegas conseguiam retornar em missões com vagas limitadas, Krikalev aceitou a missão de permanecer na Mir para evitar que a estação espacial ficasse desativada e sem manutenção. Ao todo, ele passou 311 dias no espaço — mais do que o dobro do tempo previsto inicialmente —, completando cerca de 5 mil voltas ao redor do nosso planeta.
O resgate com ajuda da Alemanha
O retorno seguro de Sergei Krikalev só foi possível graças a uma parceria internacional e ao investimento financeiro de outro país: a Alemanha. Os alemães pagaram a quantia de 24 milhões de dólares para garantir que uma nave russa trouxesse o cosmonauta de volta à Terra.
Krikalev finalmente pousou em março de 1992. Ao sair da cápsula, o cenário que encontrou era completamente diferente daquele de quando decolou: a União Soviética tinha virado história, e ele, que havia partido como um cidadão soviético, retornou à Terra como um cidadão russo, sendo condecorado como Herói da Federação Russa por sua bravura em órbita.