A Tradição Centenária de Cachoeira, a Capital do Licor, que Embala os Festejos Juninos e Impulsiona a Economia Local
No coração do Recôncavo Baiano, na histórica cidade de Cachoeira, reside um segredo que há mais de um século adoça e aquece os corações dos baianos, especialmente durante os festejos juninos: o Licor Roque Pinto. Mais do que uma bebida, é um legado de três gerações da família Pinto, que transformou a produção artesanal em um verdadeiro patrimônio cultural e econômico, solidificando a fama de Cachoeira como a “capital do licor”.
A história dessa tradição começa com Francisco Pinto, um visionário comerciante que, no início do século XX, já vendia diversos produtos em seu armazém, entre eles, licores. No entanto, foi com seu filho, Roque Pinto, que o negócio familiar alçou voos maiores. Conhecido por sua generosidade e pela qualidade inconfundível de suas bebidas, Roque expandiu a produção e a reputação de seus licores para além das fronteiras de Cachoeira, conquistando paladares por todo o estado e até mesmo fora do país. Sua paixão pela arte de produzir licores e sua dedicação em manter a tradição viva foram fundamentais para que a marca Roque Pinto se tornasse sinônimo de excelência.
Atualmente, é Rosival Pinto, filho de Roque, quem zela pelo legado familiar. Com a mesma paixão e esmero de seus antecessores, Rosival mantém a produção artesanal, garantindo a qualidade que atravessou décadas e se tornou um ícone do São João da Bahia. A fábrica, que funciona nos fundos da loja principal em Cachoeira, mantém o processo manual, desde a infusão das frutas até o engarrafamento, preservando a autenticidade e o sabor único de cada licor. O processo de alguns sabores, como o tradicional Licor de Jenipapo, pode levar até 9 ou 10 meses para ser finalizado, desde a compra da fruta, lavagem, fusão no álcool e água, até a prensagem e filtração final.
O Licor como Coração do São João Baiano
O licor é, sem dúvida, um dos protagonistas das festas juninas na Bahia. Para o povo do Recôncavo, ele tem um significado que transcende a bebida, sendo um elemento de identidade regional, turismo e orgulho local. É a bebida que aquece as noites frias de junho e acompanha as rodas de conversas e os arrasta-pés. Em anos de grande movimento junino, a marca Roque Pinto chega a vender cerca de 100 mil litros de licor nos meses de abril, maio e junho, gerando dezenas de empregos diretos e indiretos e impulsionando a economia local. Fora do período junino, as vendas representam menos de 5% desse volume, demonstrando a força do São João para o setor.
A variedade de sabores é um dos pontos altos da produção de licores na Bahia. Além do clássico jenipapo, que possui um sabor levemente ácido, frutado e um fundo amadeirado, a Roque Pinto e outros produtores da região oferecem uma vasta gama de opções. Sabores como maracujá, cacau (com seu toque amargo), coco (refrescante), amendoim (lembrando paçoca líquida), milho verde, jabuticaba, cupuaçu, cajá, açaí, graviola, ameixa, limão e gengibre estão entre os mais procurados. Há também opções mais cremosas como capuccino, café, chocolate e menta. Essa diversidade atende a todos os paladares, desde os mais tradicionais aos que buscam novas experiências.
Reconhecimento e Futuro da Tradição
Em 2017, a produção artesanal do Licor de Cachoeira foi reconhecida como Patrimônio Imaterial da cidade, um testemunho da importância cultural e histórica da bebida para a região. Esse reconhecimento reforça o valor do modo de fazer tradicional e do saber que é transmitido de geração em geração. Além da Roque Pinto, outras famílias e pequenas agroindústrias da agricultura familiar contribuem para manter essa rica tradição viva, com licores feitos de frutas cultivadas de forma sustentável, como umbu e tamarindo.
A popularidade do licor no São João baiano é tão grande que a bebida está em processo para se tornar patrimônio cultural e imaterial de toda a Bahia. Essa iniciativa visa proteger e valorizar ainda mais essa manifestação cultural que se integra às festividades de São João, Santo Antônio e São Pedro, celebrando a fé, a cultura e a união familiar.
Para quem visita Cachoeira, a loja do Licor Roque Pinto, localizada na Rua Rodrigo Brandão, 16, no Centro, é um ponto de parada obrigatório. Ali, é possível degustar os variados sabores e, se possível, visitar a área de produção nos fundos, para entender a magia por trás de cada garrafa. A tradição do licor baiano, especialmente o Roque Pinto, continua a ser um elo entre o passado e o presente, mantendo viva a essência do São João e a identidade do povo da Bahia.