Após ataque fatal, decisão do ICMBio determina que a onça-parda permanecerá em cativeiro para garantir a segurança da população e o bem-estar do animal
A onça-parda que matou um caseiro em uma fazenda no município de Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul, não será devolvida à natureza. A decisão foi anunciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e levada em consideração por especialistas em fauna silvestre, que avaliaram o comportamento do animal e os riscos envolvidos em uma possível reintegração.
O ataque ocorreu no último sábado (20), quando o caseiro, identificado como Joselito Ramires, de 50 anos, foi surpreendido pelo felino enquanto realizava atividades rotineiras na propriedade rural. Segundo informações da polícia, a vítima foi arrastada por vários metros e parcialmente devorada antes da chegada das autoridades.
A onça foi capturada pelas equipes do Corpo de Bombeiros e do Instituto Homem Pantaneiro, com apoio do ICMBio, no domingo (21), nas proximidades da fazenda onde ocorreu o ataque. O animal foi sedado e levado inicialmente para avaliação veterinária.
Após análise comportamental e veterinária, os técnicos concluíram que a onça, já acostumada à presença humana, passou a apresentar um comportamento de predador habituado a ambientes modificados, o que inviabiliza sua soltura em habitat natural sem oferecer riscos a outras pessoas. Em nota, o ICMBio afirmou que a decisão segue protocolos internacionais de manejo de fauna.
O felino será encaminhado para uma instituição autorizada, onde permanecerá em cativeiro sob cuidados permanentes. O local ainda não foi divulgado oficialmente, mas, segundo informações preliminares, instituições como o Instituto Nex, em Goiás, e o Criadouro Conservacionista Onça Pintada, no Mato Grosso, foram consultados para receber o animal.
Especialistas em comportamento animal reforçam que a reintrodução de predadores que atacaram humanos é considerada extremamente arriscada, tanto para a segurança pública quanto para o próprio bem-estar do animal, que pode sofrer represálias em áreas rurais ou urbanas. Além disso, a adaptação ao cativeiro pode evitar a eutanásia, medida que, embora prevista em casos extremos, foi descartada neste caso.
A tragédia em Porto Murtinho reacendeu o debate sobre os conflitos entre humanos e animais silvestres, especialmente em regiões onde o avanço da agropecuária reduz o habitat natural das espécies. Segundo levantamento do ICMBio, o número de incidentes envolvendo grandes felinos no Brasil tem aumentado nos últimos anos, pressionando ainda mais a necessidade de políticas públicas de proteção ambiental e educação rural.
Em paralelo, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul continua investigando as circunstâncias do ataque e as condições da propriedade rural, para apurar eventuais responsabilidades quanto à segurança dos trabalhadores em áreas de risco.
O caso gerou comoção na região e levanta uma reflexão importante sobre os desafios da convivência entre o ser humano e a vida selvagem, em especial em áreas de expansão agrícola.