Avanço do mercado de trabalho e fortalecimento da renda tiraram mais de 10 milhões de pessoas da vulnerabilidade nos últimos anos, mas desigualdade estrutural e juros altos ainda contêm avanço social permanente
O Brasil registrou uma melhora estatística expressiva em seus indicadores sociais. A parcela da população pertencente às classes D e E recuou para 19,4%, o menor percentual observado desde 2012. Paralelamente, nas 22 principais regiões metropolitanas do país, a taxa de pobreza recuou para 18,4%, consolidando o menor patamar da série histórica iniciada há 13 anos. Os dados, que constam no boletim Desigualdade nas Metrópoles e em levantamentos econômicos, revelam que a combinação desses fatores permitiu que mais de 10 milhões de pessoas deixassem a condição de vulnerabilidade social no período entre 2021 e 2025.
O principal motor por trás desse avanço social foi o desempenho do mercado de trabalho. A expansão das oportunidades de emprego, sobretudo para trabalhadores com menor escolaridade, impulsionou os rendimentos na base da pirâmide social. Graças a esse movimento, a renda domiciliar per capita média nas regiões metropolitanas atingiu o recorde histórico de R$ 2.766 mensais. Embora programas de transferência de renda como o Bolsa Família sigam fundamentais para o suporte de famílias vulneráveis, especialistas apontam que o impacto recente desses auxílios foi mais limitado na variação dos índices, uma vez que os valores do benefício não passam por reajustes desde março de 2023. O crescimento real veio, majoritariamente, do salário e das atividades econômicas.
Por outro lado, o cenário positivo convive com desafios estruturais severos. Cerca de 15,2 milhões de pessoas ainda vivem na pobreza nas grandes cidades, sobrevivendo com até R$ 729 por mês por indivíduo — um contingente que equivale à soma inteira dos estados do Pará, Paraíba e Sergipe. A extrema pobreza também apresentou queda expressiva, atingindo a taxa de 3,2% (cerca de 2,6 milhões de pessoas vivendo com até R$ 229 mensais por integrante familiar), o menor nível desde o biênio 2013-2014. Contudo, o Índice de Gini, que mede a concentração de riqueza, estacionou em 0,511, expondo que os 10% mais ricos ainda ganham 16,1 vezes mais do que os 40% mais pobres.
A disparidade regional e os fatores macroeconômicos também acendem o alerta de especialistas sobre a fragilidade dessa ascensão social. As metrópoles das regiões Norte e Nordeste continuam concentrando os maiores índices de pobreza; para fins de comparação, enquanto a renda per capita média no Distrito Federal atinge R$ 4,401, na região metropolitana de São Luís o valor é de apenas R$ 1.616. Além disso, as altas taxas de juros no país acabam concentrando ainda mais a renda no topo, beneficiando quem tem capacidade de realizar aplicações financeiras. Como as famílias que saíram da pobreza recentemente ainda não conseguiram acumular patrimônio substancial, elas permanecem suscetíveis a oscilações da economia, o que significa que a permanência dessa mobilidade social dependerá diretamente de um crescimento econômico sustentável a longo prazo.