Relatório do IBGE revela avanço significativo na “plataformização” do trabalho: mais pessoas atuam via apps, mas o panorama traz desafios como jornadas intensas, informalidade e remuneração por hora menor.
Entre 2022 e 2024, o Brasil experimentou um crescimento expressivo no número de pessoas que utilizam aplicativos ou plataformas digitais como fonte principal de trabalho — um salto estimado em cerca de 25,4%, conforme os dados mais recentes do IBGE. Esse aumento elevou o total de trabalhadores nessa condição para aproximadamente 1,7 milhão.
O que mostram os números
Em 2022, o contingente desse tipo de trabalho era de cerca de 1,3 milhão de pessoas; em 2024, o total atingiu aproximadamente 1,65 a 1,7 milhão. Em termos proporcionais, esses trabalhadores passaram de representar 1,5% dos ocupados para cerca de 1,9%.
O levantamento considera atividades como transporte de passageiros por aplicativos (excluindo táxis tradicionais), entrega de comida ou produtos via app, prestação de serviços gerais ou profissionais por plataformas e táxis por aplicativos. Dentro dessas categorias, mais da metade — cerca de 53% — atua no transporte particular de passageiros; quase 30% em entregas; e cerca de 18% em serviços gerais ou profissionais.
Quem são esses trabalhadores
O perfil dos trabalhadores por aplicativo revela algumas características marcantes:
- Majoritariamente homens: cerca de 83,9% dos plataformizados são homens, índice bem acima da média do total de ocupados.
- Faixa etária: quase metade (47,3%) tem entre 25 e 39 anos; cerca de 36% têm entre 40 e 59 anos.
- Escolaridade: cerca de 59,3% possuem ensino médio completo ou ensino superior incompleto; 16,6% têm superior completo; 9,3% não possuem instrução ou têm apenas o fundamental completo.
- A grande maioria trabalha por conta própria (86,1%), com apenas 6,1% na condição de empregadores.
- A informalidade domina: cerca de 71,1% dos que trabalham via aplicativos estão na informalidade, muito acima dos 44,3% observados na população geral ocupada.
Jornada, remuneração e desafios
Apesar de muitos optarem por essa modalidade pela flexibilidade, os dados apontam para desafios concretos:
- A renda média mensal dos trabalhadores por aplicativo foi estimada em aproximadamente R$ 2.996, contra cerca de R$ 2.875 entre trabalhadores convencionais — uma vantagem de cerca de 4,2%.
- No entanto, esses trabalhadores atuam mais horas por semana (44,8 horas em média) contra 39,3 horas entre não-plataformizados. Consequentemente, a remuneração por hora trabalhada é menor no segmento de apps: cerca de R$ 15,40 por hora contra R$ 16,80 para os demais.
- Outro ponto crítico: as plataformas têm forte grau de controle sobre valores pagos, prazos e até bloqueios de acesso para quem “desrespeita” regras internas. Cerca de 91% dos motoristas afirmam que a remuneração é determinada pela plataforma.
O que esse crescimento sugere
Esse movimento sinaliza várias transformações no mundo do trabalho:
- As plataformas digitais se consolidam como alternativa de ocupação — principalmente em um cenário onde o mercado formal ainda enfrenta vários obstáculos.
- A diversificação das atividades também aparece: serviços gerais ou profissionais via app cresceram mais de 50% no período, indicando que não são apenas transporte e entregas que movimentam a “economia de apps”.
- Mas, ao mesmo tempo, o cenário implica fragilidades: alta informalidade, menos direitos trabalhistas, remuneração por hora inferior e jornadas maiores.
- A discussão sobre regulamentação, proteção social e vínculo trabalhista segue aberta: qual será o papel do Estado, das plataformas e dos próprios trabalhadores para equilibrar flexibilidade e justiça no trabalho?
E agora: possíveis rumos
Diante desse panorama, algumas questões se impõem para o futuro próximo:
- Como garantir que quem trabalha por aplicativos tenha cobertura previdenciária e direitos mínimos de proteção? Dados mostram que a contribuição à Previdência entre estes profissionais é bem abaixo da média.
- Como as plataformas e o Estado devem agir para evitar que a modalidade se transforme em “trabalho informal digitalizado” — ou seja, com os custos e riscos assumidos pelo trabalhador e poucos direitos garantidos?
- De que forma os próprios trabalhadores podem se organizar ou negociar condições melhores — considerando a dependência das regras impostas pelas plataformas?
- E para os que buscam esse tipo de trabalho, qual o equilíbrio entre autonomia e supervisão digital? Quais são as estratégias para que a renda realmente compense o esforço?
Em resumo
O crescimento de 25% no número de trabalhadores por aplicativos entre 2022 e 2024 mostra como o trabalho por meio de plataformas digitais se firma como uma tendência no Brasil. Aproximadamente 1,7 milhão de pessoas já têm essa ocupação como principal. Mesmo com alguma vantagem de renda média, elas enfrentam jornadas maiores, remuneração por hora menor, alto grau de informalidade e dependência de regras das plataformas. A modalidade oferece oportunidades, mas também exige que a sociedade e o mercado de trabalho se adaptem para dar conta dos desafios que ela traz.