Entre a falta de indicação no sindicato dos atores e a desclassificação burocrática no dos roteiristas, filme brasileiro precisa de manobra extra para chegar ao Oscar
O caminho para o Oscar 2026 tornou-se um pouco mais íngreme para o cinema brasileiro nesta quarta-feira (7). O longa “O Agente Secreto”, que vinha sendo apontado como um dos grandes destaques da temporada, sofreu dois golpes estratégicos em Hollywood: a ausência de Wagner Moura na lista de indicados do The Actor Awards (antigo SAG Awards) e a desclassificação oficial do roteiro de Kleber Mendonça Filho no WGA Awards, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas.
A notícia caiu como um balde de água fria nos entusiastas do cinema nacional, já que essas duas premiações são consideradas os pilares de votação que costumam antecipar os vencedores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
A polêmica desclassificação burocrática
Diferente do que muitos podem imaginar, a exclusão de “O Agente Secreto” do prêmio de roteiro não teve relação com a qualidade da narrativa. O motivo é puramente contratual. O Sindicato dos Roteiristas dos EUA (WGA) possui regras extremamente rígidas: só podem competir roteiros escritos sob a jurisdição do sindicato ou de associações internacionais que possuam acordos de reciprocidade.
Como o filme é uma produção independente brasileira, ele não se enquadra nessas exigências sindicais americanas. Esse é um obstáculo comum enfrentado por grandes obras estrangeiras; filmes como “Parasita” e “Anatomia de uma Queda” também foram considerados inelegíveis pelo WGA no passado, mas isso não os impediu de vencer o Oscar de Melhor Roteiro meses depois.
Wagner Moura e a concorrência acirrada
Já no campo da atuação, a expectativa era de que Wagner Moura fizesse história como o primeiro brasileiro indicado individualmente ao prêmio do sindicato dos atores (The Actor Awards). Sua interpretação densa em um thriller político ambientado nos anos 70 foi aclamada em festivais como Cannes e Nova York.
No entanto, a lista final de indicados revelou uma preferência por atores de grandes produções de Hollywood, que contam com campanhas de marketing multimilionárias. A ausência de Moura é vista por críticos internacionais como uma das maiores “esnobadas” do ano, dado o impacto artístico de seu trabalho em “O Agente Secreto”.
O que esperar agora?
Apesar desses revezes nos sindicatos, a campanha para o Oscar continua viva. A Academia possui regras de elegibilidade mais amplas e menos burocráticas do que os sindicatos de classe. O foco da equipe brasileira agora se volta para o BAFTA (o Oscar britânico) e o Critics Choice Awards, onde o filme ainda possui forte fôlego.
A trajetória de “O Agente Secreto” reforça a importância do cinema nacional ocupar espaços globais, enfrentando não apenas a concorrência artística, mas também as complexas engrenagens da indústria cinematográfica americana.