Novo método promete ser mais eficaz, menos desconfortável e permitirá diagnóstico precoce de câncer do colo do útero
O Sistema Único de Saúde (SUS) anunciou uma mudança histórica na estratégia de prevenção ao câncer do colo do útero no Brasil: a partir do segundo semestre de 2025, o tradicional exame de Papanicolau será progressivamente substituído pelo teste de DNA do HPV. A nova metodologia é mais precisa na detecção do vírus HPV, principal causador do câncer cervical, e promete ser menos desconfortável para as pacientes.
De acordo com o Ministério da Saúde, a implementação do novo exame começará em 29 cidades de diferentes regiões do país, em um projeto-piloto que visa avaliar a logística e o impacto do teste em larga escala. A expectativa é que, até 2026, o novo método esteja disponível em todo o território nacional.
O exame de DNA do HPV permite identificar a presença do material genético do vírus de alto risco oncogênico antes mesmo do surgimento de lesões celulares, oferecendo um diagnóstico mais precoce e uma abordagem preventiva mais eficaz. Isso representa um avanço significativo em relação ao Papanicolau, que detecta alterações já existentes nas células do colo do útero.
Além disso, outra vantagem do novo exame é a frequência: mulheres que tiverem resultado negativo para HPV poderão repetir o teste a cada cinco anos, diferente do Papanicolau, que exige repetição anual ou bienal conforme as diretrizes atuais. Esta mudança poderá aumentar a adesão das mulheres ao programa de rastreamento, considerando o menor número de visitas necessárias e a maior precisão do teste.
Quem deverá realizar o novo exame
O público-alvo do novo exame são mulheres de 25 a 64 anos, a faixa etária de maior risco para o desenvolvimento do câncer do colo do útero. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infecção persistente por tipos oncogênicos de HPV é responsável por praticamente todos os casos dessa neoplasia.
Atualmente, o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano, sendo a quarta causa mais comum de morte por câncer entre mulheres no país, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Especialistas apontam que o novo exame de DNA pode contribuir de forma decisiva para reduzir a incidência e mortalidade associadas à doença.
O investimento do Ministério da Saúde na substituição do método também dialoga com as metas globais estabelecidas pela OMS para a eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030.
Impacto da vacinação contra o HPV
O avanço do exame de DNA do HPV no SUS também reforça a importância da vacinação contra o vírus, que é disponibilizada gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos imunossuprimidos. A vacinação, combinada ao rastreamento eficaz, é a estratégia central para prevenir o câncer do colo do útero.
Embora a vacinação tenha avançado nos últimos anos, a cobertura vacinal ainda está abaixo do ideal. Em 2023, segundo o Ministério da Saúde, a cobertura da segunda dose foi de apenas 57,6%. Para alcançar a eliminação do câncer de colo de útero como problema de saúde pública, é necessário atingir 90% de cobertura vacinal.
Experiência internacional
Diversos países já adotaram o exame de DNA do HPV como método primário de rastreamento, incluindo Austrália, Reino Unido, Canadá e países europeus. A experiência internacional demonstra que a substituição do Papanicolau pelo teste de DNA resulta em maior detecção precoce de lesões pré-cancerosas, redução de mortalidade e maior eficiência nos programas de prevenção.
A Austrália, por exemplo, implementou a mudança em 2017 e, desde então, observou uma queda expressiva nas taxas de incidência e mortalidade pelo câncer do colo do útero, estando no caminho para se tornar o primeiro país a erradicar a doença.
Como será feita a transição
Durante o período de transição, o Papanicolau continuará disponível para as mulheres que precisarem, até que o exame de DNA do HPV esteja plenamente implementado. As unidades básicas de saúde receberão treinamento para realizar a coleta e o envio das amostras para análise laboratorial específica, já que o exame exige infraestrutura adequada para detecção molecular.
O governo federal promete investimentos em capacitação de profissionais, modernização de laboratórios e campanhas de conscientização para orientar a população sobre a mudança e a importância da realização do exame.
A substituição do Papanicolau pelo teste de DNA do HPV no SUS representa um marco para a saúde pública brasileira e um avanço significativo no combate ao câncer do colo do útero.