Em celebração ao centenário de seu nascimento, uma das maiores referências religiosas e intelectuais do Brasil será reverenciada no parlamento, marcando o reconhecimento de sua luta por diversidade e contra a intolerância.
Brasília, DF – O Congresso Nacional se prepara para um evento de grande simbolismo e importância cultural e religiosa: uma sessão solene será realizada na próxima quinta-feira, 12 de junho, às 14h, para homenagear o centenário de nascimento de Mãe Stella de Oxóssi (Maria Stella de Azevedo Santos), uma das mais influentes e respeitadas Ialorixás do Brasil. A iniciativa de Senadores e Deputados visa reconhecer o legado duradouro de uma mulher que dedicou sua vida à preservação das tradições africanas, à promoção da cultura afro-brasileira e à incansável luta contra o racismo e a intolerância religiosa.
Mãe Stella, nascida em 2 de maio de 1925 em Salvador, Bahia, transcendeu as fronteiras do Candomblé para se tornar um ícone nacional. De formação inicial como enfermeira, ela foi iniciada no Candomblé ainda jovem e, em 1976, assumiu a liderança do histórico terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, sucedendo Mãe Senhora e tornando-se a quinta Ialorixá de um dos mais importantes marcos da cultura negra no Brasil, reconhecido inclusive pelo Iphan como patrimônio cultural.
Sua influência não se limitou ao universo religioso. Mãe Stella foi uma intelectual prolífica, autora de diversos livros que se tornaram referência para o estudo e a compreensão do Candomblé e da cultura afro-brasileira. Entre suas obras notáveis estão “Opô Afonjá: um babá em oitenta anos” (1995), “Meu Tempo é Agora” (1993), “Owé: provérbios” (2009) e “Epé Lèyí: Português-Nagô” (2003). Em 2013, ela quebrou barreiras ao ser eleita para a Academia de Letras da Bahia (ALB), tornando-se a primeira Mãe de Santo a ocupar uma cadeira em uma academia de letras no país. Sua voz e seus escritos foram fundamentais para disseminar conhecimentos ancestrais e desmistificar a religião.
A homenagem no Congresso Nacional, proposta pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), e pelos deputados Bacelar (PV-BA) e Lídice da Mata (PSB-BA), é um reconhecimento formal do Estado brasileiro à contribuição inestimável de Mãe Stella. Ela representou e representa a força e a resiliência das mulheres negras que, historicamente marginalizadas, foram pilares na construção da identidade nacional e na manutenção da herança africana no Brasil.
Ao longo de sua vida, Mãe Stella foi uma ferrenha defensora da liberdade religiosa e da convivência pacífica entre os credos. Sua postura firme contra o preconceito e a discriminação a transformou em um símbolo de resistência e diálogo. Ela recebeu inúmeras honrarias, incluindo o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Medalha 2 de Julho da Assembleia Legislativa da Bahia, o título de Cidadã de Salvador e a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
A sessão solene no Congresso é, portanto, mais do que uma celebração do seu centenário; é um ato de justiça e um lembrete da importância de preservar a memória e os ensinamentos de figuras que dedicaram suas vidas à construção de um Brasil mais justo, inclusivo e respeitoso com sua diversidade cultural e religiosa. Mãe Stella de Oxóssi, que nos deixou em 27 de dezembro de 2018, aos 93 anos, em Nazaré, Bahia, continua a inspirar gerações com seu legado de sabedoria, fé e luta por direitos.