Composto por Tirzepatida, o medicamento injetável da Eli Lilly é um agonista duplo que promete revolucionar o tratamento da obesidade, apresentando resultados superiores em perda de peso em comparação a outras opções disponíveis no mercado, mas exige acompanhamento médico rigoroso e mudanças no estilo de vida.
Uma notícia aguardada com grande expectativa pela comunidade médica e por milhões de brasileiros que convivem com a obesidade e o sobrepeso foi confirmada nos últimos dias: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do medicamento Mounjaro (Tirzepatida) para o tratamento dessas condições no país. Produzido pela farmacêutica Eli Lilly, o Mounjaro já estava disponível no Brasil desde 2023, mas sua indicação original era restrita ao tratamento do diabetes tipo 2. Agora, com a nova aprovação, o medicamento se posiciona como uma ferramenta poderosa no arsenal contra a obesidade, uma doença crônica complexa e multifatorial que afeta uma parcela significativa da população brasileira.
A aprovação da Anvisa para a indicação estendida do Mounjaro baseou-se nos robustos resultados do programa de ensaios clínicos SURMOUNT, que envolveu mais de 20 mil pacientes em todo o mundo. Os estudos demonstraram uma eficácia notável na redução do peso corporal. Em um dos principais ensaios, o SURMOUNT-1, com pacientes com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, os participantes que utilizaram Tirzepatida, em conjunto com dieta e exercícios físicos, alcançaram uma redução média de 21% do peso corporal. Impressionantemente, cerca de um terço dos participantes conseguiu perder mais de 25% de seu peso inicial.
Um dos diferenciais do Mounjaro reside em seu inovador mecanismo de ação. Ao contrário de outros medicamentos injetáveis populares para perda de peso, como Ozempic e Wegovy (ambos à base de Semaglutida, um agonista de GLP-1), e Saxenda (Liraglutida), o Mounjaro atua como um agonista duplo. Isso significa que ele ativa simultaneamente dois receptores de hormônios intestinais: o GLP-1 (Peptídeo-1 Semelhante ao Glucagon) e o GIP (Polipeptídeo Inibitório Gástrico Dependente de Glicose).
A ação combinada desses dois hormônios traz múltiplos benefícios:
- GLP-1: Atua no cérebro para aumentar a sensação de saciedade e reduzir o apetite, retarda o esvaziamento gástrico (o que prolonga a sensação de “estômago cheio”) e estimula a secreção de insulina de forma dependente da glicose, além de suprimir a secreção de glucagon (hormônio que eleva a glicose no sangue).
- GIP: Potencializa a secreção de insulina induzida pela glicose e parece modular o metabolismo de gordura, contribuindo ainda mais para a redução do apetite e a perda de peso.
Essa sinergia faz com que a Tirzepatida seja considerada, em estudos comparativos diretos como o SURMOUNT-5, mais potente na promoção da perda de peso. Neste estudo, pacientes que usaram Mounjaro perderam, em média, 20,2% do peso corporal, em comparação com 13,7% daqueles que utilizaram Semaglutida (Wegovy). Isso representa uma perda de peso 47% maior com o Mounjaro. Além da redução de peso, os estudos também indicaram melhorias significativas em indicadores metabólicos como colesterol, glicemia e pressão arterial, bem como uma redução notável na circunferência abdominal.
Indicações e Cuidados Essenciais
Com a nova aprovação, o Mounjaro pode ser prescrito para adultos com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² (caracterizando obesidade), ou para aqueles com IMC a partir de 27 kg/m² (sobrepeso) que apresentem pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, como hipertensão, dislipidemia (colesterol alto) ou apneia do sono. É crucial enfatizar que o uso do medicamento deve ser sempre associado a um programa de dieta hipocalórica e aumento da atividade física.
Como todo medicamento, o Mounjaro não é isento de efeitos colaterais. Os mais comuns são de natureza gastrointestinal, incluindo náuseas, diarreia, constipação, vômitos, dor abdominal, má digestão e refluxo. Geralmente, esses sintomas são leves a moderados e tendem a diminuir com a continuidade do tratamento. Efeitos menos comuns, como alterações no ciclo menstrual, no sono, no humor, queda de cabelo e enfraquecimento das unhas, também foram relatados em alguns casos. Contraindicações específicas, como histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou Síndrome de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2, também devem ser cuidadosamente avaliadas pelo médico.
O tratamento com Mounjaro é de longo prazo e deve ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar, incluindo endocrinologistas, nutricionistas e, em alguns casos, psicólogos. O objetivo é não apenas promover a perda de peso, mas também garantir a manutenção dos resultados e o desenvolvimento de hábitos de vida saudáveis, evitando o reganho de peso após a interrupção da medicação, caso ocorra.
No que tange ao acesso, as doses mensais de Mounjaro no Brasil podem variar de R$ 1.400 a R$ 2.300, dependendo da dosagem e do local de compra, posicionando-o como um tratamento de custo considerável. A chegada dessa nova opção representa um marco no tratamento da obesidade, oferecendo esperança e resultados promissores para muitos, desde que o uso seja feito sob estrita supervisão médica e como parte de uma abordagem integral à saúde.