Denúncias apontam ambiente degradante, controle rígido e exploração de adolescentes na residência do influenciador em João Pessoa
Desde o início deste mês, ex-funcionários do influenciador digital paraibano Hytalo Santos, preso em 15 de agosto em São Paulo, levaram ao Ministério Público do Trabalho da Paraíba (MPT-PB) relatos perturbadores sobre o que acontecia nos bastidores de sua luxuosa mansão em João Pessoa.
Segundo depoimentos, o local parecia um cenário improvisado — sujo, com lixo acumulado por dias e condições insalubres, ainda que escondidas durante filmagens. Funcionários, inclusive seguranças, descreveram um clima “degradante” e “assediador”, onde o acesso a itens básicos como comida, banheiro ou celular era rigidamente controlado.
Um dos relatos mais pesados envolve uma jovem que engravidou enquanto morava na casa e perdeu o filho. Também foi mencionado que muitos adolescentes só se alimentavam “quando ele (Hytalo) queria”. Após as câmeras desligadas, faltavam à escola — ou, eventualmente, eram chamados apenas para aproveitar alguma agenda e reproduzir um conteúdo idealizado para filmagens.
As festas realizadas na mansão vinham com bebidas alcoólicas liberadas — inclusive para menores — e aconteciam com frequência alarmante. Um ex-funcionário relembra: “Todos bebiam, sem restrição.”
A residência parecia menos um lar e mais um ‘reality show’: os adolescentes eram filmados todos os dias em coreografias sensuais e outros formatos midiáticos que geravam lucro por meio de publicidade, rifas e sorteios. Reporta-se até recebimento de dinheiro em espécie, em malas, e joias como forma de pagamento.
O MPT-PB investiga indícios de exploração do trabalho infantil digital, abuso sexual, tráfico humano — com elementos de restrição de liberdade — e graves violações dos direitos trabalhistas e humanos. Uma apuração que já ouviu mais de 15 pessoas, reuniu dezenas de vídeos, áudios e outros materiais contundentes.
Adicionalmente, processos trabalhistas movidos por ao menos 13 seguranças e duas ex-assessoras revelaram abusos extremos: jornadas de até 14 horas sem intervalo, atrasos salariais, dívidas realizadas por conta da influência do casal e até ofensas com cunho racista. Uma das ex-assessoras foi apelidada de “Isaura”, em referência à escravidão, e relatou ter que usar seu próprio cartão para custear gastos do lar e das crianças.
Desde junho de 2025, o Ministério Público do Trabalho da 13ª Região já havia aberto investigação contra Hytalo, seu marido Israel Nata Vicente e empresas associadas, por suspeitas de exploração infantil, irregularidades trabalhistas e a criação da “Turma do Hytalo”, um grupo de crianças monetizadas sem respaldo legal. A defesa afirma que coopera com as investigações e nega todas as acusações.