De direito constitucional à rede que salva vidas — o SUS completa 35 anos transformando o cuidado com a saúde da população brasileira
Em 19 de setembro de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos — um marco que consolida o sistema como o maior, gratuito, universal e estatal do mundo. Resultado da 8.ª Conferência Nacional de Saúde (1986), o SUS foi oficialmente instituído pela Constituição de 1988 e regulamentado pela Lei nº 8.080, em 1990, estabelecendo a saúde como direito de todos e dever do Estado.
Uma transformação histórica
Antes da criação do SUS, apenas trabalhadores formais vinculados à Previdência Social (cerca de 30 milhões de pessoas) tinham acesso garantido à assistência pública. O restante da população dependia da caridade ou pagava por serviços médicos. Hoje, cerca de 76 % dos brasileiros — aproximadamente 213 milhões de pessoas — dependem exclusivamente do SUS, que realiza anualmente 2,8 bilhões de atendimentos e conta com cerca de 3,5 milhões de profissionais em todas as áreas da saúde.
Atenção primária e inovação social
A Estratégia Saúde da Família (eSF), implantada em 1994, trouxe a Atenção Primária como base do sistema, com equipes distribuídas em postos de saúde urbanos, zonas rurais, comunidades ribeirinhas e territórios indígenas. Essa abordagem promove ações integradas de prevenção, promoção, diagnóstico e tratamento, fortalecendo o vínculo entre pessoa, família e território.
Depoimentos que revelam o impacto
A técnica de enfermagem Ana Célia, do interior do Piauí, diz:
“Foi na Unidade Básica de Saúde que fiz meu pré-natal, recebi todas as vacinas e meu filho nasceu com segurança. Hoje, quando ele adoece, sei que posso contar com o SUS.”
Já Robério Melo, sobrevivente de um grave problema hepático, afirma:
“Eu renasci. O SUS me devolveu a vida.” Graças ao sistema, recebeu transplante de fígado gratuito e hoje atua na conscientização sobre doação de órgãos. Em 2024, o SUS realizou 30 mil transplantes no Brasil — recorde histórico.
Durante a pandemia de Covid-19, o SUS teve papel decisivo. Agentes comunitários e profissionais de saúde garantiram assistência até em áreas remotas. Rodrigo, de Minas Gerais, lembra que chegou ao hospital com 50 % dos pulmões comprometidos, e foi atendido com atenção mesmo em meio ao caos hospitalar — um atendimento que, segundo ele, salvou sua vida.
Resposta a emergências e crises humanitárias
Em tragédias como a da Boate Kiss (2013) e nas enchentes do Rio Grande do Sul (2024), o SUS atuou com unidades móveis, apoio psicossocial e mobilização de profissionais. Na crise Yanomami, decretada em 2023, a mortalidade caiu 33 % no primeiro trimestre de 2025, com reduções expressivas em doenças respiratórias (45 %), malária (65 %) e desnutrição (74 %).
Avanços programáticos e line-up de serviços
O SUS abriga o maior Programa Nacional de Imunizações da América Latina, com 48 imunobiológicos — incluindo 31 vacinas — e foi responsável pela erradicação da poliomielite (1994) e recertificação do Brasil como livre do sarampo pela OPAS. O país também pioneiro na vacina contra a dengue.
Entre os principais programas estão:
- SAMU 192 (2003)
- Brasil Sorridente, Farmácia Popular e Hemobrás (2004)
- Rede Cegonha (hoje Rede Alyne, desde 2011)
- Mais Médicos (2013)
- Brasil Saudável (2024)
- Agora Tem Especialistas (2025) — focado em oncologia, cardiologia, ginecologia, ortopedia, oftalmologia e otorrinolaringologia, com 2,5 milhões de atendimentos via telessaúde em 2024.
Desde 2023, o governo federal também investe no fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — com a meta de produzir até 70 % dos medicamentos, vacinas e equipamentos usados pelo SUS no Brasil nos próximos 10 anos.
Desafios e metas para o futuro
O combate ao tempo de espera nos atendimentos levou à expansão da telessaúde — capaz de reduzir em até 30 % a espera por consultas com especialistas. O Novo PAC Saúde prevê ampliação de UBS, maternidades, ambulâncias SAMU, unidades odontológicas móveis e teleconsultas até 2026, inclusive em áreas indígenas, com atendimento 24h e profissionais bilíngues.
O SUS ultrapassa os muros dos hospitais: atua na regulação de alimentos e medicamentos, no controle de epidemias, na coleta de água segura e na proteção social. É uma rede abrangente que protege vidas antes mesmo dos primeiros sintomas serem notados.