Em mais de 30 cidades, artistas, movimentos sociais e cidadãos protestam contra medidas que ampliam imunidade parlamentar e perdão a condenados por crime político.
Neste domingo, 21 de setembro de 2025, ocorreu uma das maiores mobilizações populares dos últimos anos no Brasil: protestos contra a PEC da Blindagem e o PL da Anistia reuniram milhares de pessoas em 33 capitais, incluindo Salvador, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
O que está em jogo
A PEC da Blindagem foi aprovada na Câmara dos Deputados em votação-relâmpago em 16 de setembro e segue agora para o Senado. A proposta exige que qualquer acusação criminal contra parlamentares só possa avançar com autorização do próprio Congresso por votação secreta — o que críticos apelidaram de “blindagem” ou até “PEC da bandidagem”.
Ao mesmo tempo, o PL da Anistia pretende conceder perdão legal para pessoas condenadas por envolvimento no golpe antidemocrático em 8 de janeiro de 2023 — inclusive pode beneficiar o ex-presidente Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos de prisão.
Salvador como epicentro da resistência
Na capital baiana, o ato ocorreu no Morro do Cristo e seguiu pela Avenida Oceânica, com um clima de carnaval político. A cantora Daniela Mercury comandou o protesto em cima de um trio elétrico, acompanhada por figuras como o rapper Baco Exu do Blues, o bloco Cortejo Afro, a atriz Nanda Costa e a percussionista Lan Lahn.
Já o ator Wagner Moura, baiano e símbolo nacional, subiu ao trio e fez um discurso contundente:
“Sem anistia. Porque foi essa lei de anistia… que a gente teve governo igual ao que tivemos com Bolsonaro. Isso não pode acontecer nunca mais.”
“Aqui na Bahia a extrema direita não se cria. Sem bandidagem, sem anistia e sem esculhambação.”
“Nossa democracia… que é exemplo para o mundo inteiro. … Essa democracia botou para lenhar.”
Ele também cantou com o público e celebrou o recente julgamento que condenou os líderes do golpe como um marco histórico para a democracia brasileira.
Movimento nacional com adesão popular e cultural
Em São Paulo, cerca de 43.400 pessoas ocuparam três quarteirões da Avenida Paulista — segundo estimativas baseadas em imagens de drones — sob as bandeiras dos movimentos Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, além do PSOL e PT.
Outras capitais também exibiram forte presença popular com participação de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Chico César, Fernanda Takai, MC Pepita e Djonga, combinando música, cultura e falas políticas em eventos simbólicos contra os projetos legislativos.
Os movimentos sociais — incluindo MST, MTST, sindicatos e grupos estudantis — estiveram ao lado da sociedade civil e artistas nas ruas, reforçando a exigência por democracia, justiça e transparência institucional.
Contexto e significado político
Esses protestos aconteceram após episódios legislativos polêmicos: a aprovação da PEC e do PL da Anistia foi acelerada em meio a críticas de retrocesso político. Cidadãos expressaram indignação com o que chamam de blindagem jurídica do Congresso e tentativa de reescrever impunemente a história recente do país.
Artistas e intelectuais, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, também demonstraram repúdio à anistia a golpistas, afirmando que uma nova anistia repetiria a falha da de 1979, que permitiu que crimes graves do regime militar ficassem sem punição — justo o que não querem repetir hoje.
Enquanto isso, protestos em capitais internacionais como Berlim, Lisboa e Londres mostram solidariedade à causa brasileira, ampliando o alcance do debate global sobre democracia e responsabilização política.