Enquanto governo oficializa cerca de 2.500 vítimas fatais, necrotérios lotados e falta de testes de DNA expõem subnotificação dramática após tremores devastadores.
A tragédia humanitária provocada pelos fortes terremotos que atingiram a Venezuela ganhou um novo capítulo de incertezas e dor. Especialistas internacionais e profissionais de saúde locais estão levantando sérias dúvidas a respeito do balanço oficial de vítimas divulgado pelas autoridades do país. Enquanto o governo afirma que ao menos 2.595 pessoas morreram em decorrência dos tremores, médicos legistas e organizações independentes alertam que esse total está muito abaixo da realidade, não representando “nem mesmo um terço do que realmente está lá”.
A situação mais dramática se concentra na região de La Guaira e na capital, Caracas, onde os necrotérios estão operando acima da capacidade máxima. Relatos vindos de patologistas forenses — que preferem o anonimato por medo de sofrer retaliações do Estado — descrevem um cenário indescritível e desesperador. Segundo os profissionais, a maior parte das vítimas pertence a famílias de baixa renda, que foram as mais afetadas pelo desabamento das estruturas e agora enfrentam o fardo de resgatar, por conta própria, os corpos de seus parentes em meio aos escombros.
Logística precária e falta de recursos agravam o cenário
Um dos grandes obstáculos para a contabilização correta dos mortos é a extrema falta de infraestrutura financeira e técnica na Venezuela. Testes de identificação por DNA são caros demais para a realidade atual do país. Como consequência, equipes de perícia alertam que muitas crianças estão chegando aos necrotérios em avançado estado de decomposição, tornando quase impossível o reconhecimento visual por parte de seus familiares.
O coordenador das Nações Unidas para a Venezuela, Gianluca Rampolla del Tindaro, confirmou em coletiva que o mundo está, sem dúvidas, diante de um número de mortos muito superior ao que vem sendo publicado nos boletins do governo. A lentidão e a falta de transparência na resposta oficial liderada por Delcy Rodríguez têm gerado forte revolta na população.
Nas portas dos necrotérios, o cenário é de exaustão extrema. Há relatos de pessoas que viajam de ônibus por um dia inteiro pelo interior do país apenas para tentar identificar parentes, sem saber como arcarão com os custos dos funerais ou se conseguirão localizar os familiares que continuam desaparecidos em meio à destruição.