Espaço histórico no Passeio Público passa pela intervenção mais ampla de sua trajetória, ganha acessibilidade e modernização tecnológica, e retoma espetáculos para o público em outubro
Um dos palcos mais emblemáticos do Brasil e verdadeiro símbolo da resistência cultural baiana, o Teatro Vila Velha está pronto para reencontrar o seu público. Localizado no Passeio Público, em Salvador, o equipamento cultural passou pela maior e mais rigorosa obra de restauração e requalificação de sua história de 62 anos. As intervenções adaptaram o espaço aos padrões modernos de tecnologia e acessibilidade, sem perder a essência e a memória que o consagram como a “pia batismal dos artistas baianos”.
A entrega oficial do novo complexo ocorre no dia 25 de setembro, a partir das 17h, em uma solenidade especial para convidados dirigida por Márcio Meirelles, que contará com cortejos, performances, uma linha do tempo musical e o tradicional caruru no Cabaré dos Novos. Já a programação de espetáculos aberta ao público geral tem início em outubro.
Realizada pela Prefeitura de Salvador com investimento global de R$ 30 milhões — viabilizados via Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult) e Fundação Gregório de Mattos (FGM), sob coordenação da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) e execução da Superintendência de Obras Públicas (Sucop) —, a intervenção renovou as instalações respeitando o projeto arquitetônico original. A concepção contou com a coordenação dos arquitetos Nivaldo Andrade e Mário Vitor Bastos (A+P Arquitetos Associados), com a consultoria do arquiteto alemão Carl von Hauenschild, autor de uma reforma anterior em 1994 e do projeto original do local.
Uma das principais conquistas da reforma foi a adequação de acessibilidade. A rampa de acesso principal, que possuía inclinação superior a 13%, foi readequada para no máximo 8%. Para garantir a autonomia do público e dos artistas, o complexo também recebeu novos elevadores, sanitários adaptados, camarins acessíveis e intervenções de nivelamento no próprio Passeio Público.
Na parte cênica e tecnológica, o palco em formato de arena — mantido exatamente no mesmo ponto desde a fundação do teatro, em 1964 — ganhou módulos e praticáveis adaptáveis importados da Alemanha, permitindo diferentes configurações de plateia para até 400 pessoas. O teatro recebeu ainda novos sistemas de iluminação, sonorização e climatização, isolamento acústico atualizado, renovação da rede elétrica com subestação própria, além de um plano moderno de prevenção e combate a incêndios. A bilheteria também foi transferida para o térreo para facilitar o atendimento.
Além da sala principal, a obra requalificou o tradicional Café Cabaré dos Novos, que agora pode funcionar de forma simultânea às apresentações do palco principal graças ao isolamento acústico; a sala de ensaios Mário Gusmão; áreas para oficinas e a estrutura do Cine Vila, equipado com tela retrátil e projetor de 18 mil lumens. O espaço também abriga o Centro de Pesquisa e Memória (Nós, Por Exemplo), responsável por guardar mais de um milhão de documentos históricos, entre figurinos, fotos e textos, atualmente em fase de digitalização.
Inaugurado em 1964 por iniciativa da Sociedade Teatro dos Novos, o Vila Velha foi o berço do movimento Tropicália, abrigou a estreia de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé e Novos Baianos, e foi a casa de fundação do Bando de Teatro Olodum e da companhia Viladança. Com o encerramento das obras, a nova fase do teatro aposta em temporadas mais longas de espetáculos e em ações formativas voltadas para crianças e jovens através do programa Pé de Feijão Arte e Educação, reafirmando o compromisso do espaço com o futuro das artes baianas.