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A maternidade aos 40+ (ou a não-maternidade): caminhos diversos, experiências válidas

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Chegar aos 40 anos é atravessar uma fronteira simbólica. É olhar para trás e perceber o quanto já se viveu, ao mesmo tempo em que se encara o futuro com novas perguntas. Entre elas, uma aparece com frequência na vida de muitas mulheres: e a maternidade? Seja porque ainda existe o desejo de gerar um filho, seja porque o tema retorna através dos filhos crescidos, enteados, netos ou até mesmo da decisão consciente de não ter filhos, a verdade é que essa fase da vida traz consigo uma pluralidade de experiências.

O que me toca mais profundamente é perceber que, por muito tempo, a sociedade tentou nos convencer de que havia apenas um “caminho certo”: casar cedo, ter filhos ainda jovem, viver a maternidade de um jeito quase automático, como se fosse obrigação. Hoje, felizmente, cada vez mais mulheres reivindicam o direito de viver esse tema da maneira que faz sentido para elas. Algumas decidem ser mães aos 20, outras aos 40. Algumas escolhem não ser. Algumas se tornam madrastas, outras se descobrem mães de pet ou encontram realização no cuidado de sobrinhos, alunos, afilhados. Todas essas vivências têm valor. Todas merecem respeito.

A maternidade tardia: desejo, ciência e desafios

Nos últimos anos, cresce o número de mulheres que decidem ser mães após os 40. Seja porque priorizaram os estudos e a carreira, seja porque não tinham encontrado um parceiro(a) ideal, ou ainda porque o desejo só amadureceu nessa fase, os motivos são diversos. Dados do IBGE mostram que o número de brasileiras que tiveram filhos depois dos 40 cresceu 83% entre 2003 e 2022. Esse é um movimento global: na Europa, por exemplo, países como Itália e Espanha também registram aumentos expressivos na maternidade tardia.

É verdade que a ciência coloca alguns alertas. A partir dos 35 anos, há maior risco de complicações gestacionais, como hipertensão e diabetes, além de maior chance de infertilidade. Mas a medicina também evoluiu muito: técnicas de reprodução assistida, congelamento de óvulos e acompanhamento especializado ampliam as possibilidades. Mais do que isso, muitas mulheres relatam que viver a maternidade nessa fase traz uma maturidade emocional que não tinham quando eram mais jovens.

Ser mãe aos 40 não significa ser “atrasada”. Significa apenas ter um tempo próprio. E tempo, sabemos, é algo que cada mulher deve poder viver sem pressão.

A não-maternidade: um caminho igualmente legítimo

Se, por um lado, cresce o número de mulheres que escolhem ter filhos mais tarde, por outro, também aumenta o movimento daquelas que decidem não ter filhos. Esse estilo de vida, conhecido como childfree, ainda enfrenta preconceito. Muitas vezes, essas mulheres escutam frases como “você vai se arrepender” ou “quem vai cuidar de você na velhice?”. Mas será que a maternidade deve ser vista como um “seguro” contra a solidão?

A verdade é que não querer filhos também é um ato de responsabilidade. É reconhecer que esse papel exige entrega, tempo e energia, e que nem todas desejam viver essa experiência. E isso não significa uma vida vazia: mulheres sem filhos frequentemente constroem trajetórias ricas, com liberdade para viajar, se dedicar à carreira, aos amigos, à espiritualidade, ao ativismo ou a projetos que impactam positivamente a sociedade.

Conheço de perto essa realidade: minha irmã caçula, hoje com 43 anos, decidiu não ter filhos — uma escolha que a acompanha há muitos anos. Quando conheceu seu companheiro, essa decisão foi colocada à prova pelo desejo dele de ter filhos. Com o tempo, porém, esse desejo se transformou, e juntos encontraram a certeza compartilhada de que não querem seguir o caminho da maternidade biológica. Em vez disso, vivem uma forma de afeto diferente, mas igualmente legítima: têm uma golden chamada Cinderela, que recebe todo o amor que escolheram oferecer. Quem ousaria dizer que esse vínculo não é real? É uma maternidade em outra forma — e igualmente digna.

Outras formas de maternar

A vida também nos apresenta maternidades que não se encaixam no padrão tradicional, mas que são repletas de significado.

Há mulheres que se tornam madrastas e aprendem a equilibrar a delicada arte de amar filhos que não geraram. Há as avós que assumem o papel de criar os netos. Há aquelas que vivem a maternidade de forma indireta, cuidando de sobrinhos, alunos, afilhados. Há as que adotam, construindo famílias pela via do acolhimento e do amor escolhido. E há ainda as mães de pet, como citei a história da minha irmã. São mulheres que se dedicam com ternura e responsabilidade a seus animais de estimação, reconhecendo neles companheiros de vida.

Na minha própria história, experimentei várias dessas maternidades. Fui mãe cedo, aos 20 anos, do meu Gabriel. Dez anos depois, aos 30, veio Luna e, junto com ela, recebi em casa meu enteado Gustavo, já na adolescência. Embora nossa convivência fosse próxima desde os seus 2 anos, esse foi o momento em que ele realmente veio morar conosco, completando nosso sentimento de família. Ao longo desse processo, muitas vezes vivi o estigma da madrasta, que “não é mãe de verdade”, mas a vida se encarregou de mostrar que vínculos se constroem na convivência e no afeto. Essas fases foram tão distintas que, aos 44, olho para trás e tenho a sensação de que fui várias mulheres diferentes a cada experiência.

Hoje vibro com a vida adulta de Gustavo, ao lado da querida Bia, mas não posso negar que sua saída de casa trouxe também reflexões sobre o chamado “ninho vazio”. Ainda tenho Gabriel e Luna comigo, mas percebi que a partida de um filho, já é suficiente para provocar em nós esse misto de saudade, orgulho e adaptação.

Também vivi a maternidade através dos animais: fui mãe de Shery, que marcou profundamente minha história, e hoje cuido com carinho de Cookie e Loki. A cada fase, aprendi que os pets não apenas nos oferecem amor incondicional, mas também são aliados importantes para o bem-estar emocional, especialmente no envelhecimento. Eles nos lembram diariamente do valor da rotina, da alegria simples e da presença silenciosa que acolhe sem julgamentos. Cada vínculo, humano ou animal, me ensinou algo essencial sobre afeto, responsabilidade e entrega.

O peso dos julgamentos sociais

O que mais dói, em qualquer caminho, é lidar com os julgamentos. A mulher que escolhe ser mãe depois dos 40 ouve que “não tem mais idade para isso”. A que decide não ter filhos escuta que “vai se arrepender”. A madrasta enfrenta o estigma de não ser “mãe de verdade”. A mãe de filhos crescidos muitas vezes é invisibilizada, como se seu papel tivesse terminado.

Mas será que precisamos continuar medindo as mulheres com a mesma régua? Será que não é hora de entender que existem múltiplas formas de viver a vida e que todas podem ser plenas?

Um convite à acolhida

Quero deixar aqui uma mensagem para você, leitora: onde quer que você esteja nesse tema, sua escolha é válida. Se você é mãe, se não é, se pensa em ser, se já decidiu que não quer, se é madrasta, avó cuidadora, tia presente, mãe de pet ou qualquer outra forma de maternar — tudo isso é legítimo.

Plenitude não vem de seguir um roteiro imposto. Vem de reconhecer seus próprios desejos e limites, e de ter coragem para viver de acordo com eles.

E talvez esse seja o maior presente dos 40+: a liberdade de assumir quem realmente somos, sem precisar caber nas expectativas dos outros.

Conclusão: muitas formas, um mesmo valor

A maternidade (ou não-maternidade) depois dos 40 não precisa ser vista como um dilema, mas como um leque de possibilidades. Todas as escolhas têm seus desafios e recompensas. E todas merecem respeito.

No fim, ser plena além dos 40 é justamente isso: honrar o caminho que nos trouxe até aqui e acolher, sem culpa, os diferentes jeitos que escolhemos viver a vida.

Que possamos, juntas, apoiar umas às outras em nossos caminhos diversos. Porque, quando uma mulher se sente respeitada em sua escolha, todas nós ganhamos um pouco mais de liberdade.



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