Autores nos EUA acusam empresa de usar obras protegidas sem permissão para alimentar seus modelos de IA — polêmica reacende debate sobre propriedade intelectual na era digital
Uma ação coletiva movida nos Estados Unidos acusa a gigante Apple de utilizar livros protegidos por direitos autorais, sem autorização ou pagamento aos autores, para treinar seus sistemas de inteligência artificial, especialmente seu modelo de linguagem, chamado “OpenELM”.
Segundo os autores do processo, obras que lhes pertencem teriam sido copiadas e incorporadas ao conjunto de dados de forma indevida, sem crédito ou compensação.
A ação foi arquivada em tribunal federal no norte da Califórnia. No documento, os autores Grady Hendrix e Jennifer Roberson apontam que a Apple não buscou acertar com eles por suas contribuições, mesmo que potencialmente lucrativas para o negócio de IA. Até o momento, representantes da Apple e os advogados das partes não comentaram oficialmente o processo.
Esse caso insere a Apple em uma nova onda de disputas judiciais sobre os limites legais da propriedade intelectual na era da inteligência artificial. Empresas como Anthropic, Microsoft, Meta e OpenAI já enfrentaram acusações semelhantes de autores e editoras que afirmam que suas obras foram usadas sem autorização em treinamentos de IA.
Contexto mais amplo: direitos autorais e IA
A polêmica gira em torno de uma questão central: até que ponto é permitida a utilização de obras protegidas para desenvolver algoritmos de IA. Por um lado, há quem defenda que parte do uso pode ser considerado “uso transformativo” ou “fair use” (uso razoável), especialmente quando o modelo cria algo novo e diferente da obra original. Por outro lado, há argumentos firmes de que o uso de material sem autorização é uma violação clara dos direitos autorais.
Um caso que tem servido como referência nesse debate é o da empresa Anthropic, que concordou em pagar US$ 1,5 bilhão em 2025 para encerrar uma ação coletiva de autores que acusavam a empresa de usar seus livros de forma indevida no treinamento de seu chatbot Claude. Esse acordo chamou atenção porque é um dos maiores já feitos em disputas de direitos autorais envolvendo tecnologia.
Essa realidade mostra que, mesmo em meio à inovação e aos avanços tecnológicos intensos, os direitos dos criadores literários e intelectuais continuam sendo valorizados — e têm respaldo jurídico cada vez mais firme. Empresas que desenvolvem IA não podem simplesmente se apoiar no fato de que os dados são vastos: precisam considerar licenciamento, compensação e conformidade legal.
Implicações para autores, empresas e o mercado editorial
Para os autores, esse processo traz esperança de que suas obras não sejam usadas indiscriminadamente por grandes corporações. Com precedentes jurídicos mais claros, eles podem ter respaldo para negociar direitos e receber remuneração justa.
Para as empresas de tecnologia, o alerta é nítido: inovar não isenta de responsabilidade legal. É fundamental garantir que os dados usados no treinamento de IA sejam legais — seja por licenciamento, parcerias com editoras ou bases abertas devidamente autorizadas.
Para o mercado editorial, surge uma oportunidade de repensar modelos de cooperação com tecnologia. Editoras podem negociar acordos com empresas de IA para licenciamento de catálogos, tornando-se parceiras na era digital, em vez de vítimas de uso indevido.
A disputa entre inovação e proteção autoral está longe de ser resolvida, mas casos como esse da Apple mostram que as fronteiras entre criatividade humana e automação tecnológica ainda são terreno de forte disputa.