Com diárias ultrapassando R$ 10 mil, 25 países pedem transferência do evento e ONU convoca reunião de emergência até 11 de agosto para buscar soluções inclusivas
A menos de quatro meses do início da COP30 — marcada para ocorrer entre 10 e 21 de novembro de 2025, em Belém, capital do Pará — cresce uma crise diplomática e logística provocada pela alta expressiva nos preços de hospedagem na cidade. A pressão internacional sobre a viabilidade do evento aumenta, com potenciais impactos negativos para a participação de países mais vulneráveis nas negociações climáticas globais.
Representantes de pelo menos 25 países, incluindo Áustria, Bélgica, Canadá, República Tcheca, Finlândia, Holanda, Noruega, Suécia e Suíça, assinaram uma carta solicitando a transferência da COP30 para outra localidade, alegando valores “exorbitantes” e “abusivos” nas diárias, que chegam a ser até 15 vezes maiores do que a média local.
O Grupo Africano de Negociadores convocou uma reunião emergencial na ONU em 29 de julho, cobrando respostas da organização e do Brasil sobre a garantia de hospedagem acessível, e agendou um novo encontro para 11 de agosto, a fim de acompanhar as medidas em curso.
Em resposta, o governo brasileiro anunciou que cerca de 30.000 quartos já foram garantidos — número que supera a estimativa da ONU (aproximadamente 20.000), mas ainda abaixo da previsão do Brasil, que espera até 45.000 participantes. Para facilitar a organização, foi lançada uma plataforma oficial de reservas, com tarifas entre US$ 100 e US$ 600 por noite, destinada a acomodar as diversas delegações.
Para os 98 países em desenvolvimento — incluindo Pequenos Estados Insulares e Países Menos Desenvolvidos — foram destinados 15 quartos por delegação, com preços entre US$ 100 e US$ 200. Já para as demais nações, a reserva é de 10 quartos por delegação, com tarifas de até US$ 600 por noite.
Apesar disso, parte das ofertas listadas em outras plataformas chega a custar até US$ 700 por pessoa por noite — valor superior ao auxílio diário de subsistência da ONU, fixado em US$ 149 — o que tem levado países a cogitar reduzir ou até cancelar suas delegações caso a crise persista.
Setor hoteleiro reage às críticas
Em meio à crescente pressão internacional, a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira do Pará (ABIH-PA) rebateu as acusações de inação, afirmando que já disponibilizou cerca de 500 apartamentos com tarifas entre US$ 100 e US$ 300, conforme solicitado pela organização da COP30. Segundo Toni Santiago, presidente da ABIH-PA, muitos participantes estão mal informados sobre os esforços feitos pelo setor hoteleiro local para atender à demanda.
Além disso, a ABIH-PA apontou que a desorganização e os preços abusivos são, em parte, consequência da falha na implementação da plataforma oficial de hospedagem, cuja promessa de lançamento em junho ainda está sendo cumprida de forma parcial, contribuindo para a confusão e dificultando o acesso às tarifas reguladas.
Esse contraponto evidencia que a crise não decorre apenas de fatores externos à cidade, mas envolve múltiplos atores e desafios administrativos. O diálogo entre os setores envolvidos e a organização da COP30 é fundamental para o alcance de soluções efetivas.
Riscos para o evento
Especialistas alertam que a crise hoteleira pode comprometer seriamente o sucesso da COP30. A redução na participação de delegados, principalmente de países mais pobres e vulneráveis, pode enfraquecer a legitimidade dos acordos climáticos e prejudicar a representatividade do encontro.
Embora a escolha de Belém tenha caráter simbólico para evidenciar a importância da Amazônia, o principal problema está no planejamento logístico e na gestão das hospedagens, e não na própria cidade.
Diante disso, o governo brasileiro e a ONU reafirmam o compromisso com a realização de uma conferência ampla, inclusiva e acessível. Ambos aguardam a reunião final marcada para 11 de agosto, quando deverão apresentar um cronograma mais robusto com garantias concretas de acomodações dignas para todos os participantes.