Novo relatório aponta agravamento da saúde mental infantojuvenil, impulsionado pela expansão desenfreada das redes sociais
BRASIL – Um recente e impactante relatório divulgado em 11 de junho de 2025 pela organização de defesa dos direitos da criança KidsRights, em colaboração com a Universidade Erasmus de Roterdã, lança um alarme urgente sobre o estado crítico da saúde mental entre crianças e adolescentes em todo o mundo. O estudo destaca que o uso excessivo e problemático das redes sociais está alimentando uma crise sem precedentes, com consequências devastadoras que incluem o aumento dos índices de suicídio entre jovens.
De acordo com o “KidsRights Index 2025”, uma em cada sete crianças e adolescentes com idades entre 10 e 19 anos enfrenta algum desafio relacionado à saúde mental. Essa estatística, por si só alarmante, é apenas a “ponta do iceberg”, segundo Marc Dullaert, fundador e presidente da KidsRights, devido ao estigma e à subnotificação generalizada. A crise atingiu um “ponto crítico”, exacerbada por plataformas digitais que, frequentemente, priorizam o engajamento em detrimento da segurança e bem-estar infantojuvenil.
A Complexa Relação entre Mídias Digitais e Saúde Mental
A pesquisa aponta uma correlação direta entre o uso intenso de internet e mídias sociais e o aumento das tentativas de suicídio entre adolescentes, citando dados de diversos países, incluindo Turquia, Áustria, Coreia, Taiwan, Austrália, Canadá e China. Globalmente, a taxa de suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos é de 6 por 100.000, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre 2018 e 2022, o uso problemático de redes sociais entre adolescentes de 11, 13 e 15 anos aumentou de 7% para 11% em 44 países da Europa, Ásia Central e Canadá.
Estudos mais amplos reforçam essa preocupação. Pesquisas indicam que adolescentes que passam mais de três horas por dia em redes sociais duplicam o risco de desenvolverem sintomas de depressão e ansiedade. Os mecanismos por trás dessa correlação são complexos e multifacetados:
- Comparação social e imagem corporal: A exposição constante a vidas “perfeitas” e padrões de beleza irrealistas pode levar a baixa autoestima, insatisfação corporal e, em casos graves, transtornos alimentares.
- Cyberbullying: O bullying online é uma realidade cruel que pode ter impactos psicológicos profundos, contribuindo para ansiedade, depressão e pensamentos suicidas.
- Privação de sono: O uso excessivo de telas, especialmente antes de dormir, interfere na produção de melatonina, prejudicando a qualidade do sono, essencial para o desenvolvimento cerebral e a saúde mental dos adolescentes.
- Redução de atividades offline: O tempo gasto nas redes sociais frequentemente substitui atividades importantes para o bem-estar, como exercícios físicos, interações sociais presenciais, leitura e sono.
- Exposição a conteúdo nocivo: Adolescentes podem ser expostos a conteúdo inadequado, violento ou que promove autolesão e suicídio, exacerbando vulnerabilidades existentes.
Contudo, é importante notar que a relação entre mídia social e saúde mental é individualista e complexa. Enquanto o uso problemático e o consumo passivo são mais associados a efeitos adversos, alguns estudos também apontam aspectos positivos, como o fortalecimento do apoio social e a redução do isolamento para certos indivíduos.
Recomendações e Medidas Preventivas
Diante desse cenário preocupante, especialistas e organizações de saúde mental ressaltam a necessidade de ações concretas e coordenadas:
- Limitação do Tempo de Tela: Embora não haja um número mágico, muitas diretrizes, como as da Academia Americana de Pediatria e do Departamento de Saúde do Governo Australiano, sugerem limitar o tempo de tela recreativo para adolescentes a no máximo duas horas por dia, fora do horário escolar. Mais importante do que o tempo, é a qualidade e o tipo de uso.
- Promoção de Equilíbrio Digital: Famílias são encorajadas a estabelecer regras de uso de tecnologia focadas no equilíbrio, conteúdo e comunicação. Isso inclui criar zonas e horários “sem tela” (como refeições e antes de dormir) e incentivar atividades offline, como esportes, música, arte e hobbies.
- Educação e Conscientização: Crianças e adolescentes precisam ser educados sobre o uso consciente e seguro das redes sociais, privacidade online e como identificar e lidar com conteúdo nocivo ou cyberbullying.
- Apoio Parental e Diálogo: Pais devem monitorar o uso digital de seus filhos, familiarizar-se com as plataformas populares e manter um diálogo aberto sobre o que eles veem e como se sentem online. Ferramentas de controle parental e a criação de um plano de mídia familiar podem ser úteis.
- Acesso a Ajuda Profissional: É fundamental que adolescentes e suas famílias tenham fácil acesso a serviços de saúde mental. Linhas de apoio à crise, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) no Brasil (ligue 188), são recursos vitais para quem precisa de ajuda imediata.
- Regulamentação e Responsabilidade das Plataformas: O relatório KidsRights enfatiza que “o tempo das meias-medidas acabou” e pede que governos e plataformas de mídia social assumam maior responsabilidade. É crucial que as plataformas priorizem a segurança infantil sobre o engajamento e que os governos implementem avaliações de impacto abrangentes sobre os direitos das crianças no ambiente digital.
A crise de saúde mental entre a juventude é um desafio complexo que exige uma abordagem multifacetada e a colaboração de pais, educadores, profissionais de saúde, governos e as próprias empresas de tecnologia. O alerta do KidsRights serve como um chamado à ação para proteger o bem-estar da próxima geração na era digital.