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Fígado se torna “vilão” ao transformar metanol em veneno — entenda o mecanismos e os riscos

Reprodução/Fhoresp
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Surto de intoxicações por bebidas adulteradas mobiliza autoridades de saúde; o tratamento depende de rapidez e protocolos complexos

O fígado, nosso órgão protetor — que normalmente desintoxica o corpo — pode acabar, em determinadas circunstâncias, transformando uma substância nociva em algo ainda mais perigoso. É o que acontece quando ingerimos metanol presente em bebidas adulteradas: esse álcool “industrial” é convertido no organismo em compostos extremamente tóxicos. Vem comigo que vou explicar, de forma clara, como isso acontece, quais são os sintomas, como é feito o tratamento e o que a sociedade precisa saber frente a esse surto recente.

O que é metanol e por que ele é usado ilegalmente

O metanol, também chamado de álcool metílico (fórmula CH₃OH), é amplamente usado na indústria como solvente, para produzir tintas, combustíveis, produtos químicos e mesmo em alguns processos industriais.

Por ser incolor e ter cheiro parecido com o etanol — o álcool que usamos em bebidas —, ele pode ser furtivamente adicionado a destilados como gim, vodca ou uísque. Assim, fraudadores aumentam o volume de bebida adulterada, lucrando ilegalmente. Recentemente, autoridades confirmaram que bebidas adulteradas com metanol foram vendidas em bares e distribuidoras, o que está provocando casos graves de intoxicação no Brasil.

O papel “dramático” do fígado no processo tóxico

Você pode se perguntar: “mas o fígado não deveria proteger o corpo?” Sim — mas, no caso do metanol, ele acaba transformando algo perigoso em algo ainda pior.

  1. Absorção e chegada ao fígado
    Após ingerir a bebida adulterada, o metanol é absorvido pelo trato gastrointestinal e enviado ao fígado.
  2. Metabolização em formaldeído e ácido fórmico
    Lá, a enzima álcool desidrogenase converte o metanol em formaldeído. Em seguida, outra enzima (aldeído desidrogenase) o transforma em ácido fórmico, responsável por boa parte da toxicidade.
    O ácido fórmico se acumula porque o organismo demora para eliminá-lo — isso causa danos sérios.
  3. Danos celulares e acidose metabólica
    O ácido fórmico interfere no funcionamento das mitocôndrias (as “usinas de energia” das células), mesmo quando há oxigênio disponível. Isso gera “falta” de energia celular.
    Também ocorre acidose metabólica — acúmulo de ácidos no sangue — que acelera disfunções enzimáticas e leva à morte celular.
    O acúmulo e os efeitos tóxicos atinge principalmente o sistema nervoso e o nervo óptico, explicando os sintomas de lesão na visão, podendo evoluir para cegueira irreversível.

Em resumo: o fígado age como “transformador” do metanol em compostos muito mais perigosos para o cérebro, olhos e outros órgãos.

Quais são os sintomas da intoxicação por metanol

Os sinais não costumam aparecer de imediato — geralmente surgem entre 12 e 24 horas após o consumo da bebida adulterada.

Alguns sintomas iniciais podem parecer muitos com os de uma ressaca:

  • Dor de cabeça
  • Náuseas e vômitos
  • Dor abdominal
  • Confusão mental
  • Visão turva, visão dupla ou até cegueira repentina
  • Fotofobia (sensibilidade à luz)
  • Em casos mais graves: convulsões, coma e falência múltipla de órgãos

Por isso, sintomas como visão alterada e mal-estar depois de beber merecem atenção imediata.

A gravidade do surto atual no Brasil

Este surto de intoxicações por metanol em 2025 acarretou grande preocupação em todo o país. Alguns dados mais recentes:

  • Até agora, já são mais de 100 casos suspeitos de intoxicação reportados em diversos estados.
  • 11 casos confirmados — todos, até o momento, no estado de São Paulo.
  • Um óbito confirmado e outros em investigação.
  • Além de São Paulo, estados como Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Paraná e Mato Grosso do Sul têm notificações suspeitas.
  • Bares e distruibuidoras suspeitas já foram interditados, apreensões de garrafas adulteradas foram feitas e operações policiais foram desencadeadas.
  • O governo declarou alerta nacional e criou protocolos de monitoramento em saúde pública.

Esse contexto reforça que o consumo de bebidas de origem duvidosa torna-se extremamente perigoso em meio a esse cenário.

Como é feito o tratamento e por que rapidez salva vidas

O tratamento da intoxicação por metanol exige rapidez. Quanto antes for iniciado, maiores as chances de minimizar danos permanentes.

Aqui estão estratégias usadas:

  • Etanol farmacêutico (ou fomepizol): funciona como “competidor” do metanol na enzima álcool desidrogenase, inibindo a formação dos metabólitos tóxicos (formaldeído e ácido fórmico).
  • Reposição de folato ou ácido folínico: ajuda o organismo a metabolizar mais rápido o ácido fórmico acumulado.
  • Correção da acidose metabólica e suporte intensivo (suprimento de oxigênio, fluidos, monitoramento)
  • Hemodiálise em casos graves, para remover o metanol e os metabólitos diretamente do sangue e reduzir o dano.

Só que tudo isso depende de identificar cedo que uma pessoa ingeriu uma bebida adulterada. Como os sintomas iniciais podem ser confundidos com embriaguez comum, é fácil atrasar o diagnóstico.

Além disso, o etanol administrado como antídoto deve ser de uso hospitalar, em dose controlada, e acompanhado de monitoramento.

O que você pode fazer para se proteger e o que a sociedade precisa saber

  • Evite bebidas compradas de fontes desconhecidas ou que estejam com preço muito abaixo do normal.
  • Verifique selos, lacres e integridade da embalagem. O Ministério da Justiça já recomendou atenção especial a lacres tortos.
  • Se sentir sintomas estranhos após beber — especialmente alterações súbitas na visão, náuseas intensas ou confusão mental — procure socorro médico imediatamente.
  • Fiscalização e denúncia são vitais: bares e revendedores devem ser investigados.
  • Especialistas e autoridades já organizam gabinetes de crise e protocolos de atenção para estados e municípios.

Em um caso como este, informação, vigilância e ação rápida podem fazer a diferença entre sequelas irreversíveis ou salvamento de vidas.