A técnica pioneira criada pela Universidade de Tel Aviv e Matricelf pode devolver a mobilidade a pessoas paralisadas — os primeiros oito pacientes devem ser operados em breve
Imagine um futuro onde pessoas paralisadas possam andar novamente graças a uma medula espinhal feita sob medida com suas próprias células. Essa realidade poderá se concretizar em breve: Israel está prestes a realizar o primeiro transplante de medula espinhal humana do mundo usando células do próprio paciente. A cirurgia, que deverá ocorrer nos próximos meses, foi autorizada pelo Ministério da Saúde de Israel e será aplicada a até oito voluntários em caráter de “uso compassivo”.
O projeto é fruto da parceria entre a Universidade de Tel Aviv e a startup Matricelf, liderada pelo professor Tal Dvir, do Centro Sagol de Biotecnologia Regenerativa, em colaboração com o Centro de Nanotecnologia da universidade. Há cerca de três anos, o grupo desenvolveu em laboratório uma medula espinhal tridimensional personalizada, a partir de células sanguíneas e tecido adiposo dos próprios pacientes. As células são geneticamente reprogramadas para se tornarem semelhantes a células-tronco, e cultivadas em um hidrogel biomimético que forma a estrutura da medula espinhal humana.
Em testes pré-clínicos com ratos paralisados crônicos, os resultados foram surpreendentes: mais de 80% deles recuperaram a mobilidade e conseguiram andar novamente; em casos de lesões recentes, a taxa de sucesso chegou a 100%.
Agora, o procedimento avançará para pacientes humanos: após aprovação em agosto de 2025, serão selecionados voluntários que poderão receber o implante. A proposta é substituir o tecido danificado por um enxerto cultivado que se funde com as áreas saudáveis acima e abaixo da lesão, restaurando a conexão nervosa que transmite os sinais elétricos do cérebro ao corpo.
O professor Tal Dvir explica que, quando a medula é rompida, como em acidentes ou quedas, o sistema nervoso fica interrompido — os neurônios não se regeneram sozinhos e o corpo forma tecido cicatricial, bloqueando a passagem do sinal. Sua equipe acredita que esse implante bioengenheirado pode reconstruir a conexão interrompida, permitindo que os pacientes retomem funções motoras perdidas.
O procedimento está prestes a marcar um novo padrão para tratamentos de lesões medulares, que afetam mais de 15 milhões de pessoas no mundo, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Se os resultados forem favoráveis, esse transplante poderá se tornar parte da medicina regenerativa global, oferecendo esperança e mobilidade a quem há anos convive com paralisia.
A startup Matricelf, fundada em 2019 com base em tecnologia licenciada da universidade, está à frente do desenvolvimento clínico. O CEO Gil Hakim destaca que o uso de células do próprio paciente reduz riscos de rejeição, e que a inovação coloca Israel na vanguarda da biotecnologia regenerativa mundial.