Carolina Arruda, 28 anos, sofre de neuralgia do trigêmeo e recorre a sedação profunda com cetamina para reiniciar a resposta do corpo aos tratamentos após várias cirurgias frustradas.
Carolina Arruda, de 28 anos, divulgou nas redes sociais nesta quinta-feira (14 de agosto de 2025) que começou um coma induzido com cetamina — uma sedação profunda — com a esperança de “reiniciar” o cérebro e recuperar a sensibilidade aos medicamentos que já não surtem efeito. Ela sofre de neuralgia do trigêmeo, conhecida como “a pior dor do mundo”, uma condição que pode causar crises intensas de dor facial e esgotar tanto o corpo quanto a mente.
O procedimento ocorre após seis cirurgias que não trouxeram alívio suficiente e tem como base um protocolo clínico desenvolvido pelo Centro de Dor da Santa Casa de Alfenas, via SUS. A internação na UTI inclui entubação e ventilação mecânica, com previsão de até cinco dias sedada.
A ideia de “reiniciar o cérebro” não é literal, como ressalta o neurologista Vinícius Ciarlariello. No entanto, a cetamina pode atuar em receptores de glutamato no sistema nervoso, reduzindo a amplificação dos sinais de dor e, assim, — ainda que temporariamente — aliviar os sintomas.
O uso da cetamina para dor crônica refratária ainda é considerado “off-label” — ou seja, fora das indicações oficiais — e é uma medida extrema, por seus riscos e possibilidade de dependência. Além disso, sedação profunda envolve perigos sérios: supressão respiratória, necessidade de ventilação mecânica, riscos cardíacos e de infecções hospitalares.
Antes disso, Carolina já se submetera a outros tratamentos complexos. Em 2024, ela recebeu o implante de uma bomba de analgésicos — capaz de liberar morfina diretamente no sistema nervoso central — o que inicialmente proporcionou uma redução parcial da dor, mas não duradoura. Também recebeu um neuroestimulador que ajuda a modular os sinais de dor. Outros tratamentos previstos incluíram cirurgias para descompressão do nervo trigêmeo e nucleotractomia.
A neuralgia do trigêmeo é um distúrbio raro e extremamente doloroso. Afeta o nervo trigêmeo — responsável pela sensibilidade e funções como mastigação — e pode surgir devido à compressão vascular, esclerose múltipla ou tumores. Carolina desenvolveu essa condição ainda jovem (por volta dos 16 anos) e já enfrentou obstáculos como diagnósticos tardios, falta de alternativas eficazes e queda na qualidade de vida — chegou, inclusive, a considerar a eutanásia na Suíça, já que esse procedimento não é permitido no Brasil.
Apesar de as opções mais radicais — como sedação profunda — estarem sendo exploradas, especialistas alertam que abordagens multidisciplinares podem complementar o cuidado: terapias físicas, mentais e técnicas como atenção plena (mindfulness) e terapia cognitivo-comportamental, embora não sejam suficientes por si mesmas, podem ajudar na qualidade de vida.
O caso de Carolina Arruda é um alerta poderoso sobre os limites e desafios dos tratamentos para dor crônica extrema. Espera-se que esta pausa cerebral abra caminho para uma melhora, ainda que temporária, na luta contra essa condição devastadora.