Terceiro designer vivo a receber uma exposição solo no Museu Metropolitano de Nova York, o britânico terá sua carreira revisitada sem deixar de lado os episódios polêmicos do passado.
O Museu Metropolitano de Arte de Nova York (Met) anunciou que o estilista britânico John Galliano será o grande homenageado da exposição de primavera do Costume Institute em 2027. O tema da mostra, intitulada “John Galliano: Horizons”, servirá de inspiração para o tradicional baile Met Gala, marcado para o dia 3 de maio de 2027.
Com o anúncio, Galliano entra para um grupo seleto de criadores: ele é o terceiro estilista a receber uma exposição individual no Met ainda em vida, honraria concedida anteriormente apenas a Yves Saint Laurent, em 1983, e a Rei Kawakubo, em 2017.
Uma trajetória entre a genialidade e o escândalo
A exposição promete realizar uma retrospectiva completa da carreira do designer, desde seu desfile de formatura na renomada escola Central Saint Martins, em 1984, passando por sua marcante atuação como diretor criativo das maisons Givenchy, Christian Dior e Maison Margiela. Entre as peças em exibição estarão roupas, acessórios icônicos — como a famosa bolsa Saddle, criada para a Dior —, croquis e cadernos de pesquisa, além de produções aclamadas como o desfile de alta-costura de primavera/verão 2024 para a Margiela.
Reconhecido por revolucionar a moda com narrativas históricas extravagantes, teatralidade nas passarelas e o aperfeiçoamento do corte em viés, Galliano atingiu o auge da carreira na Dior entre 1996 e 2011. No entanto, sua trajetória sofreu um grande baque em 2011, quando o estilista foi demitido da grife francesa após a divulgação de vídeos em que proferia ofensas antissemitas em um bar em Paris. Na época, ele foi condenado pela justiça francesa por insultos públicos de cunho racial e religioso, o que o afastou temporariamente do mundo da moda e o levou a um processo de reabilitação.
O retorno do designer ocorreu em 2014, ao assumir a direção criativa da Maison Margiela, onde uniu seu estilo maximalista à estética desconstrutiva da marca até o fim de sua gestão.
Confrontando o passado na curadoria
A organização do Met enfatizou que a exposição não vai ignorar os momentos obscuros da vida de Galliano. A mostra será estruturada em três eixos temáticos (Bearings, Horizons e Atlas of Transformation). A seção Bearings, em especial, abordará abertamente os episódios de antissemitismo do início da década de 2010 e as discussões sobre responsabilidade, ética e legado na indústria.
A decisão de realizar a exposição envolveu reuniões prévias entre o curador-chefe do Costume Institute, Andrew Bolton, a editora e organizadora do Met Gala, Anna Wintour, o próprio John Galliano e lideranças da comunidade judaica de Nova York, incluindo representantes da Liga Antidifamação (ADL). Os líderes comunitários reconheceram o esforço do estilista em se retratar e aprender com seus erros ao longo dos anos.
Segundo Andrew Bolton, a proposta da mostra é examinar como a obra de Galliano transformou a moda global, ao mesmo tempo em que reflete sobre como suas atitudes e as mudanças culturais moldaram a percepção do público sobre seu trabalho. Anna Wintour reforçou que a carreira do designer é ampla e complexa, ressaltando que encarar o passado faz parte de reconhecer a história completa do artista.