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Teste de DNA revela o segredo genético do vira-lata caramelo, o cão símbolo do Brasil

Foto: Divulgação
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Estudo inédito analisou o material genético de animais de diferentes regiões do país e comprovou que a famosa pelagem amarelada esconde uma diversidade sem tamanho

Símbolo incontestável da cultura brasileira, presença constante nas ruas e astro de incontáveis memes na internet, o vira-lata caramelo passou pelo crivo da ciência. Uma investigação realizada pelo laboratório de genética animal da Universidade de São Paulo (USP), cujos resultados foram apresentados pelo programa Fantástico, mapeou a ancestralidade do cão mais popular do país e revelou um mosaico genético surpreendente.

Para descobrir se os cachorros que compartilham a famosa pelagem amarelada possuem algum grau de parentesco ou padrão de raça, os pesquisadores analisaram o DNA de três cães sem raça definida de diferentes Estados: Jenny, de São Paulo; Valente, do Rio de Janeiro; e Frevo, de Recife. A coleta foi feita de maneira simples, com um cotonete na gengiva dos animais, e o material biológico foi cruzado com milhares de marcadores genéticos para identificar ancestrais e traços raciais.

Antes da divulgação dos laudos, especialistas e tutores tentaram adivinhar as origens com base no porte e na aparência física dos pets. Havia quem apostasse em forte presença de pastor-alemão em Valente e de labrador no recifense Frevo — apelidado carinhosamente de “labradoido”.

No entanto, o resultado laboratorial mostrou que não existe um “modelo de fábrica” para o caramelo:

  • Valente (Rio de Janeiro): O teste identificou traços de boxer, pastor americano miniatura, pastor branco suíço, galgo espanhol, presa canário, bulldog campeiro e até chihuahua. Apesar dessa variedade, cerca de 75% da sua composição equivale a dezenas de outras raças que não interferem diretamente em seu comportamento, consolidando sua identidade de legítimo vira-lata.
  • Frevo (Recife): Apresentou uma mistura ainda mais rica, com 74% do DNA associado a 62 raças distintas. Entre as marcas mais evidentes apareceram fila brasileiro, pastor da Mantiqueira, doberman, parson russell terrier, pumi, spino degli Iblei e beauceron.
  • Jenny (São Paulo): Trouxe a maior surpresa do estudo. Embora também apresente uma ancestralidade bastante variada, a análise acusou uma presença marcante da raça Yorkshire terrier. A proporção encontrada indica que um dos avós da cadela era, muito provavelmente, um Yorkshire de raça pura.

O segredo por trás do tom caramelo

De acordo com a geneticista Fabiana, responsável pela análise na USP, a cor amarelada não está atrelada a uma raça específica. Trata-se do resultado de inúmeras combinações genéticas acumuladas ao longo de gerações, podendo ser ativada por mais de um mecanismo biológico.

A facilidade com que essa tonalidade se manifesta ajuda a explicar a sua prevalência no país: quase 40% de todos os cães sem raça definida no Brasil apresentam a pelagem caramelo, índice superior a qualquer outro tom.

O reflexo do povo brasileiro

Para a médica-veterinária Rita Ericson, a enorme afeição do público pelo vira-lata caramelo se deve justamente a essa profunda miscigenação. A especialista compara a diversidade genética dos cães à própria formação da sociedade brasileira. Assim como o povo do país, os caramelos não seguem uma forma única: variam em porte, intensidade da cor e temperamento.

Além disso, a especialista lembra que, embora o DNA traga pistas sobre os ancestrais, a personalidade do animal é moldada pelas experiências vividas, pelo ambiente e pelo carinho recebido em seu lar.