Terapia experimental desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck utiliza tecnologia de RNA mensageiro e apresentou resultados positivos quando combinada ao medicamento Keytruda. Pesquisa de fase 3 envolveu 1.137 pacientes.
Uma nova estratégia no tratamento do câncer de pele apresentou resultados promissores em um estudo clínico internacional. Uma vacina terapêutica personalizada, desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck, reduziu em 42% o risco de retorno do melanoma ou de morte quando utilizada em conjunto com o medicamento Keytruda, em comparação com o uso isolado da imunoterapia.
Os resultados detalhados foram divulgados pelas empresas na quinta-feira (22), com base em um estudo de fase 3 que envolveu 1.137 pacientes diagnosticados com melanoma cutâneo, um tipo de câncer de pele. Todos os participantes haviam passado pela remoção cirúrgica dos tumores.
A terapia experimental recebe o nome de intismeran autogene, também identificada como V940 ou mRNA-4157. Ela utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) para estimular o sistema imunológico a reconhecer características específicas do tumor de cada paciente.
O tratamento foi avaliado em combinação com o pembrolizumabe, princípio ativo do Keytruda, medicamento que atua no sistema imunológico para ajudar o organismo a combater as células cancerígenas.
Como funciona a vacina personalizada?
Diferentemente das vacinas tradicionais, que são desenvolvidas para prevenir doenças, essa nova abordagem tem finalidade terapêutica. Isso significa que ela é destinada a pessoas que já receberam o diagnóstico de câncer e passaram pela retirada cirúrgica do tumor.
A proposta é desenvolver um imunizante específico a partir das características genéticas do câncer de cada paciente. Dessa forma, o sistema imunológico recebe informações que ajudam a identificar as alterações presentes nas células tumorais e a reagir contra elas.
A tecnologia de RNA mensageiro funciona como uma espécie de instrução para que o organismo reconheça características específicas do tumor.
O Keytruda atua de maneira complementar. O medicamento bloqueia a proteína PD-1, utilizada por alguns tumores como mecanismo para escapar das defesas naturais do organismo.
Na combinação, a vacina ajuda o sistema imunológico a identificar o alvo, enquanto a imunoterapia facilita a ação das células de defesa contra o câncer.
Estudo apresentou resultados positivos
A pesquisa, chamada INTerpath-001, acompanhou pacientes com melanoma em estágios de IIB a IV, após a remoção completa do tumor.
Depois de um acompanhamento mediano de 24,6 meses, os pesquisadores observaram que os pacientes que receberam a combinação da vacina personalizada com o Keytruda tiveram:
- Redução de 42% no risco relativo de retorno da doença ou morte.
- Redução de 38% no risco de metástase à distância ou morte.
- 82,2% de pacientes vivos e sem recorrência do câncer após dois anos, contra 70% entre aqueles que receberam apenas o Keytruda.
- 88,5% sem metástases à distância ou morte, ante 80,2% no grupo tratado somente com a imunoterapia.
Os números indicam um benefício adicional da vacina experimental. É importante esclarecer, porém, que a redução de 42% representa uma diminuição do risco relativo de recorrência ou morte, e não significa que 42% dos pacientes tenham sido curados.
Tratamento ainda está em fase de avaliação
Apesar dos resultados positivos, a terapia ainda é experimental e não está aprovada para uso clínico.
Os dados de sobrevida geral também não são conclusivos. O estudo continua em andamento para avaliar esse e outros resultados relacionados à evolução dos pacientes.
A pesquisa ainda identificou efeitos adversos relacionados ao tratamento em 95,8% dos participantes que receberam a combinação, contra 90% entre aqueles tratados apenas com Keytruda. Os eventos adversos graves, classificados entre os graus 3 e 5, foram registrados em 14,2% e 13,4% dos pacientes, respectivamente.
Segundo as empresas, não foram identificados novos sinais de segurança.
Moderna e Merck informaram que estão em diálogo com autoridades regulatórias para discutir os próximos passos e uma possível solicitação de aprovação.
No Brasil, ainda não existe previsão para a chegada da vacina. Até a publicação da reportagem original, a CNN Brasil informou que havia procurado as farmacêuticas e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas não recebeu retorno.
Os resultados representam um avanço nas pesquisas sobre tratamentos personalizados contra o câncer, mas novas avaliações ainda são necessárias antes que a terapia possa ser disponibilizada aos pacientes.